Problema de pesquisa
A sociedade capitalista desenvolve uma dependência crescente e não planejada de um vasto complexo de sistemas tecnológicos interdependentes, mantidos e expandidos por trabalhadores altamente especializados — os programadores. Simultaneamente, a introdução de agentes de IA na programação transforma a forma desse trabalho sem eliminar sua complexidade, produzindo um efeito de fetichização onde a produção parece se multiplicar quando, na verdade, o que se reconfigura são as relações de trabalho e as exigências cognitivas.
Pergunta: De que modo a transformação do ato de programar — do código binário à especificação em linguagem natural mediada por agentes de IA — se articula com o crescimento anárquico da dependência tecnológica sob o capitalismo, e quais ferramentas conceituais a filosofia da técnica e o materialismo histórico oferecem para compreender criticamente essa articulação?
Hipótese de trabalho
O ato de programar consiste na manifestação de intenções por meio de uma linguagem técnica. Porém, sob as relações capitalistas de produção, as intenções manifestadas são predominantemente as do capital, não as do trabalhador — o programador é uma mediação entre a vontade de quem controla os meios de produção e a execução técnica. Sua história revela uma progressiva aproximação entre intenção e interface técnica - mas essa “intenção” que se aproxima da máquina não é a do programador: é a do capital traduzida pelo programador.
A passagem para o desenvolvimento orientado a especificações (Reflexões sobre o desenvolvimento orientado a especificações) torna essa alienação mais visível (a especificação vem explicitamente de fora), mas não a cria — ela já existia. O spec-driven development reconfigura a alienação sem superá-la, pois não altera as relações de propriedade sobre os meios de produção digitais — concentrados nos Monopólios da informação.
A proposta de tecnodiversidade de Yuk Hui e a experiência histórica do Cybersyn oferecem horizonte crítico ao demonstrar que outra relação entre intenção, trabalho e técnica é possível — uma em que o trabalhador seja sujeito, não veículo.
Justificativa
- Crescimento real do consumo de recursos naturais por infraestrutura digital (data centers, IA generativa) — cf. Como a relação de dependência se expressa nos variados sistemas e o preço da artificial necessidade da escala infinita
- Concentração monopolista da infraestrutura da internet (Cloudflare, Google, Amazon, Microsoft) — cf. Os dados produzidos pelos seres humanos são poderosos recursos para o funcionamento dos monopólios da tecnologia
- Transformação concreta e em curso do trabalho de programação por agentes de IA — cf. Supervisionar o trabalho de uma IA é trabalhar
- Carência de análise filosófica rigorosa sobre essas transformações a partir da periferia do capitalismo
Quadro teórico
Materialismo histórico (Marx)
- Trabalho como atividade vital consciente (Manuscritos 1844)
- Alienação: quatro dimensões aplicadas ao programador
- Subsunção real do trabalho ao capital (Grundrisse, Capítulo VI inédito)
- Fetichismo: a IA como ocultamento do trabalho humano na produção de software
- Nota crítica: o uso de “fetiche” precisa ser rigoroso — demonstrar como a IA produz fetichização, não apenas afirmar
Filosofia da técnica (Yuk Hui, com apoio em Heidegger e Simondon)
- Cosmotécnica e tecnodiversidade: múltiplas relações possíveis entre cultura e técnica
- Recursividade e contingência: processos não-lineares na programação agêntica
- Gestell (Heidegger): a técnica moderna como enquadramento — o spec-driven development aprofunda ou resiste?
- Individuação técnica (Simondon): microsserviços como “meio associado” contemporâneo
- Nota crítica: é necessário ler Heidegger e Simondon diretamente, não apenas via Yuk Hui
Economia política da tecnologia
- Monopólios da informação: definição rigorosa (diferente de monopólio industrial clássico)
- Diálogo obrigatório com: Srnicek (capitalismo de plataforma), Zuboff (capitalismo de vigilância), Durand (tecnofeudalismo)
- Dados como forma de acumulação de capital — cf. Os dados produzidos pelos seres humanos são poderosos recursos para o funcionamento dos monopólios da tecnologia
- Soberania tecnológica e dependência na periferia (Vieira Pinto, perspectiva latino-americana)
- Nota crítica: a tese de que big techs são “monopólios da informação” precisa ser construída conceitualmente, não apenas declarada
Estrutura provisória da dissertação
Cap. 1: Introdução
Problema, justificativa, metodologia.
Cap. 2: Genealogia do ato de programar — Da linguagem de máquina à linguagem natural
- Tese: programar é manifestar intenções por meio de uma linguagem — cf. Escrever código significa manifestar as suas intenções por meio de uma linguagem
- Percurso histórico: binário → assembly → alto nível → especificações — cf. O desenvolvimento do ato de programar ao longo do tempo
- Deslocamento: do “como fazer” ao “o que deve acontecer” — cf. Reduzir o nível de abstração entre o que se pretende e o que se executa poderia ser benéfico para o entendimento humano?
- Questão: quem produz especificações? (conhecimento técnico permanece necessário) — cf. Como o desenvolvimento orientado a especificações pode assimilar o fator iterativo do ato de programar?
- Contexto material: as ferramentas de spec-driven development e programação agêntica não surgem no vácuo — são desenvolvidas e controladas por grandes monopólios (GitHub Copilot/Microsoft, Claude/Anthropic, Gemini/Google). A genealogia do ato de programar é inseparável da história de quem controla os meios de produção de software
Cap. 3: O ato de programar como trabalho alienado — Marx e a produção de software
- Trabalho, alienação, subsunção real
- O programador na divisão social do trabalho contemporânea
- “Supervisionar o trabalho de uma IA é trabalhar” — a não-eliminação do trabalho
- O fetiche da multiplicação: mais código produzido = mais código a ser lido. Demonstrar o mecanismo: a IA oculta o trabalho humano, fazendo parecer que o software “se produz sozinho”
- Condições materiais concretas: o programador produz para monopólios que concentram a infraestrutura digital (Cloudflare, Google, Amazon, Microsoft). A alienação é concreta: propriedade intelectual, dados como acumulação de capital, crescimento da infraestrutura sem planejamento social (data centers, consumo energético, usinas nucleares para IA). Aqui entra a questão da soberania tecnológica na periferia — o caso brasileiro (data centers estrangeiros em território nacional não significam soberania)
- A competição pela atenção e a demanda artificial como motor do crescimento anárquico dos sistemas que o programador mantém
Cap. 4: Tecnodiversidade como horizonte crítico — Yuk Hui e o Cybersyn
- Cosmotécnica: contra a universalização da técnica
- O Manifesto para uma utilização não singular de IAs como formulação prática de tecnodiversidade
- Reflexões sobre Cybersyn como contra-exemplo parcial: tecnologia participativa, dados mínimos, controle dos trabalhadores — mas reconhecendo limites e tensões (Eden Medina)
- Recursividade e não-determinismo: são realmente problemas novos?
- Apontamentos: princípios para uma relação não alienada com a técnica
- Limites honestos: tecnodiversidade como horizonte, não como solução automática
Cap. 5: Conclusão
Bibliografia mínima
Marx
- Manuscritos Econômico-Filosóficos (1844)
- Grundrisse (1857-58)
- O Capital, Livro I, caps. 13-15 (1867)
Filosofia da técnica
- HUI, Yuk. Tecnodiversidade (2020)
- HUI, Yuk. On the Existence of Digital Objects (2016)
- HUI, Yuk. Recursion and Contingency (2019)
- HEIDEGGER, Martin. A Questão da Técnica (1953) — leitura pendente
- SIMONDON, Gilbert. Do modo de existência dos objetos técnicos (1958) — leitura pendente
- VIEIRA PINTO, Álvaro. O Conceito de Tecnologia (2005) — leitura pendente
- FEENBERG, Andrew. Questioning Technology (1999)
Economia política da tecnologia
- SRNICEK, Nick. Platform Capitalism (2017) — leitura pendente
- ZUBOFF, Shoshana. The Age of Surveillance Capitalism (2019) — leitura pendente
- DURAND, Cédric. Techno-féodalisme (2020) — leitura pendente
- ANTUNES, Ricardo. O Privilégio da Servidão (2018)
- CRAWFORD, Kate. Atlas of AI (2021)
- MEDINA, Eden. Cybernetic Revolutionaries (2011)
Filosofia da mente (apoio pontual)
- SEARLE, John. Minds, Brains, and Programs (1980)
- DREYFUS, Hubert. What Computers Still Can’t Do (1992)
Leituras prioritárias (antes de submeter o pré-projeto)
- Manuscritos Econômico-Filosóficos de Marx (trecho sobre trabalho alienado)
- A Questão da Técnica de Heidegger
- Platform Capitalism de Srnicek (curto, ~150 páginas, define “capitalismo de plataforma”)
- O Conceito de Tecnologia de Vieira Pinto (vol. 1 pelo menos — pensador brasileiro, valorizado em bancas)
Programas de pós-graduação a investigar
- UFSC — PPG Filosofia (tem linha de pesquisa em filosofia da técnica?)
- USP — PPG Filosofia (tem GT de filosofia da tecnologia)
- Unisinos — PPG Filosofia (publicou sobre Yuk Hui e Simondon)
- UFRJ — PPG Filosofia
- UNICAMP — PPG Filosofia (tradição em filosofia da ciência)
- Programas interdisciplinares: CTS (Ciência, Tecnologia e Sociedade) — podem aceitar candidatos com formação em tecnologia mais facilmente
Lacunas identificadas (autocrítica necessária)
- O conceito de “monopólio da informação” precisa ser construído, não apenas afirmado — dialogar com Srnicek, Zuboff, Durand
- O uso de “anárquico” para o crescimento dos sistemas precisa justificar o que há de específico na tecnologia (vs. capitalismo em geral)
- “Fetiche” em Marx tem significado técnico — demonstrar o mecanismo de fetichização, não apenas usar a palavra
- Reflexões sobre Cybersyn deve ser contra-exemplo parcial, não modelo idealizado
- Falta diálogo com a literatura existente — as reflexões atuais são originais mas isoladas
- “Ato de programar” precisa de definição precisa: conceito fenomenológico, categoria econômica, ou relação técnica?
Notas do vault relacionadas
- Sobre o ato de programar
- O desenvolvimento do ato de programar ao longo do tempo
- Escrever código significa manifestar as suas intenções por meio de uma linguagem
- Reflexões sobre o desenvolvimento orientado a especificações
- Como o desenvolvimento orientado a especificações pode assimilar o fator iterativo do ato de programar?
- Reduzir o nível de abstração entre o que se pretende e o que se executa poderia ser benéfico para o entendimento humano?
- Supervisionar o trabalho de uma IA é trabalhar
- Como a relação de dependência se expressa nos variados sistemas e o preço da artificial necessidade da escala infinita
- Os dados produzidos pelos seres humanos são poderosos recursos para o funcionamento dos monopólios da tecnologia
- Como vive o ser humano cercado por agentes de IA?
- Reflexões sobre Cybersyn
- Estudos sobre Obsolescência Programada
- Como seria possível determinar a correção de uma implementação?
- Plano para o desenvolvimento de uma pós graduação