Algumas reflexões sobre: Cybersyn - Conversa de Rafael Grohmann com Eden Medina para o Digilabour (2024)
Penso que qualquer processo revolucionário enfrentará condições de restrição em termos de tecnologia, em resumo, os processos revolucionários, em um primeiro momento, estarão enfraquecidos tecnologicamente, entretanto, o movimento revolucionário pode pensar em como desenvolver a sua organização de maneira mais soberana, dependendo menos de serviços externos. O problema disso é que, como consequência, nunca estaremos a altura das empresas capitalistas se nos negarmos a utilizar as tecnologias do mercado, entretanto, não se trata da completa negação, mas sim, de levar em conta a conjuntura em que a luta de classes se encontra no momento de apostar as fichas em uma solução.
Por exemplo, em Cuba, parte dos engenheiros migraram para os EUA. Essa parte da classe trabalhadora é uma camada previlegiada e que portanto, é mais influenciada pelas ideias da classe dominante. Ainda que o movimento revolucionário deva disputar essa camada, sabemos que não são as camadas decisivas, e portanto, é preciso considerar que durante o processo revolucionário, haverá um grande escoamento de capital intelectual.
É preciso que o movimento comunista debata desde já sobre o que significam os avanços tecnológicos sobre o capitalismo e quais são os seus impactos sobre o meio em que vivemos. Não defenderemos que as atuais tecnologias não deveriam existir, mas sim, que a gigantesca demanda por essas tecnologias é estimulada de maneira artificial através do incentivo ao consumo, consumo esse que também se da pela competição das plataformas e redes digitais pela atenção dos seus usuários, onde rios de dinheiros são investidos em pesquisa sobre o comportamento humano. Esses estudos possibilitam que os algoritmos possam ser cada vez mais refinados para capturar a atenção, não atoa, vivemos um período onde grande parte da população se sente viciada nas redes sociais. Não esqueçamos que o crack foi distribuído de graça, e quando ninguém mais podia viver sem, foi necessário se pagar o preço.
Nós já pagamos esse preço de alguma forma, pois a nossa interação constante com a plataforma agrega valor ao produto dessas plataformas, que através de nossos constantes feedbacks, e a classificação cada vez mais segmentada dos conteúdos, passa o dia todo nos seduzindo a comprar mercadorias que não precisamos, ou então, a assumir dívidas que não queremos, para realizar sonhos artificiais que pareciam impossíveis.