No sentido marxista, “anárquico” não significa caótico ou desordenado, mas refere-se à ausência de planejamento social consciente na produção. O capitalismo produz de maneira “anárquica” porque cada capital individual decide o que, quanto e como produzir de forma privada, sem coordenação com o conjunto da sociedade. A regulação se dá post factum, pela crise.
Aplicado aos sistemas tecnológicos, o crescimento anárquico se manifesta em:
- Cada empresa desenvolve seus sistemas de maneira privada, sem planejamento integrado com as necessidades sociais
- A dependência crescente da sociedade em relação a esses sistemas não é resultado de decisão coletiva, mas de acúmulo de decisões privadas orientadas pelo lucro
- O consumo de recursos naturais (energia, água, minerais para hardware) cresce sem planejamento — data centers são construídos conforme a demanda de mercado, não conforme a necessidade social
- A redundância é massiva: milhares de empresas mantêm infraestruturas paralelas para resolver problemas semelhantes
O que há de específico na tecnologia (vs. capitalismo em geral)?
O crescimento anárquico da produção capitalista é geral — mas nos sistemas tecnológicos ele adquire uma característica particular: a interdependência sistêmica. Um microsserviço depende de outro, que depende de outro, formando cadeias de dependência que nenhum ator individual controla ou sequer compreende inteiramente. O colapso de um serviço pode cascatear por toda a cadeia. A anarquia da produção capitalista se expressa aqui como anarquia da arquitetura — cf. Sobre o ato de programar.
Além disso, gera-se uma demanda artificial que alimenta esse crescimento: mais usuários exigem mais infraestrutura, que consome mais recursos, sem que o serviço prestado corresponda a uma necessidade social genuína — cf. Como a relação de dependência se expressa nos variados sistemas e o preço da artificial necessidade da escala infinita.
A experiência do Cybersin no Chile de Allende é um contra-exemplo histórico: um sistema tecnológico desenhado com planejamento social consciente, dados mínimos e controle dos trabalhadores.
Essa reflexão é central para o pré-projeto de mestrado.
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