Em Marx, o fetichismo da mercadoria não é uma ilusão subjetiva, mas uma aparência objetiva produzida pelas relações sociais de produção. A mercadoria parece ter valor por si mesma, ocultando o trabalho humano que a produziu. O fetiche não está na cabeça das pessoas — está na estrutura da troca mercantil.

Para aplicar esse conceito à produção de software com IA, é preciso demonstrar o mecanismo pelo qual a fetichização se opera, não apenas usar a palavra como metáfora.

Hipótese do mecanismo de fetichização na programação agêntica:

  1. O programador instrui um agente de IA via especificação em linguagem natural
  2. O agente produz código — que aparece como se tivesse sido “gerado automaticamente”
  3. A aparência é de que o software “se produz sozinho”, ou que a produtividade “se multiplicou”
  4. O que se oculta: (a) o trabalho de especificar, revisar, corrigir e supervisionar — cf. Supervisionar o trabalho de uma IA é trabalhar; (b) o trabalho dos milhares de programadores cujo código foi usado para treinar o modelo; (c) o trabalho de infraestrutura (data centers, energia, manutenção)
  5. O resultado: o software como mercadoria aparece como produto de uma máquina inteligente, não como cristalização de trabalho humano

A diferença em relação a outros usos de “fetiche” é que aqui não se trata de fetiche da tecnologia em geral (isso é senso comum), mas de uma estrutura análoga à que Marx descreve no Capital, Livro I, cap. 1, seção 4: relações entre pessoas aparecem como relações entre coisas — nesse caso, entre o programador e o código, aparece a IA como agente autônomo.

Isso é central para o pré-projeto de mestrado, especificamente no Cap. 3.


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