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Os conceitos hegelianos de consciência infeliz e consciência dilacerada

“com os quais Bataille entra em contato através da Fenomenologia do Espírito - e entra em embate desde pelo menos 1929 na revista Documents - e dos cursos de Kojève na École Pratique des Hautes Études entre 1933 e 1939”

Consciência infeliz (das unglückliche Bewusstsein) Aparece no capítulo IV da Fenomenologia, na seção sobre a Autoconsciência, logo depois da dialética senhor-escravo e das figuras do estoicismo e do ceticismo. É a consciência que se cindiu internamente entre dois polos: de um lado, ela mesma como algo mutável, contingente, particular; de outro, um “imutável” que ela projeta como essência verdadeira, mas colocado num Além inatingível (paradigmaticamente, a consciência religiosa medieval — o devoto, o asceta). O drama dessa figura é que ela não consegue se reconhecer nesse imutável: por mais que se volte a ele através da devoção, do sacrifício, da mortificação de si, permanece separada dele, e cada tentativa de unificação reproduz a cisão. É uma consciência que sofre precisamente por não conseguir coincidir consigo mesma através do Absoluto que ela mesma instituiu como estranho a si.

Consciência (ou espírito) dilacerada (der zerrissene Geist / sich entzweite Geist) Essa figura aparece bem mais adiante, no capítulo VI, na seção sobre “O Espírito Alienado de Si Mesmo — a Cultura” (Bildung), quando Hegel analisa a sociedade do Antigo Regime francês às vésperas da Revolução. A referência explícita de Hegel é o Sobrinho de Rameau, de Diderot. Aqui a cisão não é mais entre um sujeito e um Além religioso, mas entre esferas do mundo efetivo (poder do Estado e riqueza, nobreza e vileza, virtude pública e vício privado) que já não se sustentam mais como opostos estáveis — tudo se inverte em seu contrário. A figura característica dessa consciência é justamente aquela que sabe de sua própria dilaceração e a exibe: o cinismo cômico, a ironia contínua, a linguagem que dissolve todo valor fixo através do espírito (Witz). É uma consciência dilacerada que, ao contrário da infeliz, não sofre em silêncio — ela fala essa dilaceração, brinca com ela, e nisso mesmo revela a verdade da cultura que a produziu.

São figuras distintas, não sinônimos: a infeliz pertence ao momento religioso da autoconsciência isolada; a dilacerada pertence ao momento histórico-social do Espírito objetivado numa cultura em decomposição. Bataille as junta (“ela se tornou […] consciência dilacerada e consciência infeliz”) de modo deliberadamente impreciso, sem reivindicar rigor de comentador — ele está fazendo um uso livre, quase metafórico, do vocabulário hegeliano para descrever a consciência revolucionária de 1933: uma consciência que, tendo perdido a fé no advento necessário da revolução (a “velha concepção geométrica do porvir”), vive cindida entre a necessidade histórica que a produziu e a impossibilidade prática de realizar suas próprias promessas — daí “dilacerada” — e ao mesmo tempo incapaz de superar essa cisão através de qualquer síntese ou consolo, vivendo apenas a intensidade dessa própria infelicidade como único combustível afetivo restante — daí “infeliz”. Ele não está fazendo exegese de Hegel; está tomando de empréstimo o vocabulário da cisão irredutível para nomear um estado de espírito político concreto, distinto de ambos os contextos originais em Hegel.


Sobre:

“possibilidades de sustentação da revolta e da realização da revolução”

“Certas coincidências de resultados do fascismo e do bolchevismo têm criado as perspectivas gerais de uma consciência da história desconcertada – de uma consciência que, nas novas condições, se transforma pouco a pouco em ironia e se habitua a considerar a morte.”

“A consciência operária se desenvolveu em função de uma dissolução da autoridade tradicional. A menor esperança da Revolução foi descrita como perecimento do Estado: mas são, ao contrário, as forças revolucionárias que o mundo atual vê perecer e, ao mesmo tempo, toda força viva tomou hoje a forma do Estado totalitário.

“A consciência revolucionária que desperta nesse mundo da coerção é também levada a se considerar historicamente como não-sentido: ela se tornou, para empregar as velhas fórmulas de Hegel, consciência dilacerada e consciência infeliz.”

“aceitaram as piores contorções feitas aos princípios revolucionários fundamentais como se fossem a própria expressão da autenticidade proletária”

“…o otimismo pode se tornar o equivalente da morte da consciência revolucionária”

“Seria necessário, atualmente, renunciar a toda compreensão para não ver que a admirável confiança ao mesmo tempo própria à Marx e ao conjunto do socialismo foi justificada afetivamente e não cientificamente: a possibilidade (talvez o dever) de uma tal justificação afetiva não desapareceu senão em uma data recente.”