Para HUI Yuk, embora a sociedade tenha se familiarizado amplamente com o desenvolvimento da cultura hacker, do software livre e das comunidades de código aberto nas últimas décadas, existe uma limitação profunda e estrutural nesse movimento.

Qual sociedade é essa que é familiarizada com essa cultura?

O grande problema é que o foco dessas iniciativas tem se restringido quase exclusivamente ao desenvolvimento de alternativas às tecnologias hegemônicas . Em outras palavras, o esforço tem sido o de criar uma ferramenta de código aberto apenas para substituir um software proprietário ou corporativo, mantendo intacta a lógica de funcionamento.

Filosoficamente, o verdadeiro desafio não é apenas mudar a licença de um software, mas focar na construção de alternativas para os modos de acesso, de colaboração e, de maneira mais importante, de epistemologia . Ao focar apenas em substituir ferramentas, o movimento do código aberto falha em questionar e transformar a forma como o conhecimento e a realidade são moldados pela tecnologia.

A cultura monotecnológica

Aqui, a tecnofilia e a tecnofobia se tornam meros sintomas.

A cultura monotecnológica baseia-se em uma “competição perversa” que vê a tecnologia como um caminho único e universal, tratando a Terra e os recursos apenas como uma composição ou métrica de exploração. Quando o software livre não propõe uma nova visão de mundo, ele corre o risco de permanecer dentro desse mesmo paradigma monotecnológico, apenas operando sob um modelo de negócios ou distribuição diferente.

O software livre e a tecnodiversidade

Para que o papel do software livre e do código aberto seja verdadeiramente revolucionário na sociedade atual, ele precisa se alinhar à busca por uma tecnodiversidade . Essa tecnodiversidade exige:

  • A construção de uma solidariedade concreta e digital: O software livre deveria atuar para desenvolver alternativas tecnológicas profundas, como novas redes sociais, ferramentas colaborativas e infraestruturas de instituições digitais capazes de formar a base para uma verdadeira colaboração global que ultrapasse fronteiras
  • O desmonte do monotecnologismo por dentro: A criação de novas tecnologias deve implicar também na diversificação de modos de vida, formas de coexistência e economias . A tecnologia deve englobar diferentes relações com os seres não humanos e o cosmos, e não apenas reproduzir a mesma racionalidade homogênea globalizante

Conclusão

A conclusão filosófica é que a simples mudança para o código aberto é insuficiente se não for acompanhada de uma ruptura com a atual epistemologia hegemônica. Uma verdadeira “solidariedade digital” não significa apenas usar mais redes sociais ou abrir o código de uma aplicação, mas sim um alerta para abandonar a competição da cultura monotecnológica e começar a produzir ativamente tecnologias que viabilizem novas formas de vida e de habitação no planeta.

Sem o desenvolvimento dessa tecnodiversidade no pensamento e na programação, torna-se impossível garantir até mesmo a sustentabilidade e a preservação da biodiversidade no futuro.