Nota

No capítulo 1, “A violência neuronal”, Han faz o seguinte diagnóstico:

O século passado foi uma época imunológica. Trata-se de uma época na qual se estabeleceu uma divisão nítida entre dentro e fora, amigo e inimigo ou entre próprio e estranho (…) Hoje a sociedade está entrando cada vez mais numa constelação que se afasta totalmente do esquema de organização e de defesa imunológicas. Caracteriza-se pelo desaparecimento da alteridade e da estranheza.

Faz sentido afirmarmos essa mudança de paradigma? Será mesmo que o “paradigma imunológico não se coaduna com o processo de globalização”? Para não ser injusto, Han argumenta que “a atualidade do discurso imunológico não pode ser interpretada como sinal de que a organização da sociedade de hoje seria uma época mais imunológica do que qualquer outra”

Não consigo concordar com a idéia de que “hoje em dia, em lugar da alteridade entra em cena a diferença, que não provoca nenhuma reação imunológica” — nossa época é marcada por inúmeros conflitos que se baseiam justamente nessa ideia de supressão do outro: as ocupações israelenses no território palestino, a vitória da AfD nas eleições (com suas pautas anti-imigração), as intervenções norte americanas nas políticas internas de outras nações, a arquitetura da exclusão que busca o afastamento da população em situação de rua dos espaços públicos… são diversos elementos que apontam que estamos longe de se afastar de um “esquema de organização e de defesa imunológicas”.