1. A base homogênea da sociedade

Define o significado de homogeneidade como comensurabilidade consciente (§1)

Em uma descrição psicológica da sociedade, a parte fundamental é a “homogeneidade tendencial”, que significa uma comensurabilidade dos elementos e a consciência desta comensurabilidade”; relações humanas são mantidas via uma redução a regras baseadas em uma consciência de identidade possível de pessoas e situações definidas”; é a exclusão da violência

Descreve a relação de utilidade da produção como base da homogeneidade social (§2)

A sociedade homogênea (produtiva) é uma sociedade útil onde o inútil é excluído de sua parte homogênea; cada elemento deve ser útil não por si, mas em relação ao outro através de uma medida comum

Descreve o dinheiro como medida comum e fundamento da homogeneidade social (§3)

O dinheiro é uma “equivalência cifrável dos diferentes produtos da atividade coletiva”, o homem existe em função do dinheiro, sendo uma função da produção coletiva; cessa a existência “por si” dando lugar a existência “para outra coisa que não por si”

Argumenta que o possuidor é o verdadeiro fundante da homogeneidade social, e não o produtor (§4)

Ao contrário da produção artesanal (onde o artesão pode possuir os meios de produção), na civilização industrial, quem se apropria dos produtor é o possuidor dos meios de produção, e não o produtor — o possuidor é função dos seus produtos

Delimita as classes afetadas pela redução tendencial ao homogêneo (§5,6)

A classe burguesa ou capitalista (possuidores dos meios de produção ou os possuidores de dinheiro destinado a sua manutenção e compra) formam a parte homogênea da sociedade, e na parte média dessa classe, acontece uma “redução tendencial do caráter humano a uma entidade abstrata e intercambiável, reflexo das coisas homogêneas possuídas”. A classe média afetada pois se beneficiam de “partes apreciadas do lucro”.

Argumenta sobre as causas da irredutibilidade do operário ao homogêneo (§6)

O operário ocupa uma dupla posição na atividade homogênea: “o operário é, em relação a uma pessoa homogênea… um estrangeiro, um homem de outra natureza, de uma natureza não reduzida, não submissa”; apenas faz parte da organização social enquanto um agente da produção, enquanto um profissional, e não enquanto um humano.

2. O Estado

Descreve as causas da formação dos elementos agitados da homogeneidade social e suas consequências (§1,2)

Bataille concorda com a concepção marxista quando o Estado “é representado a serviço da homogeneidade ameaçada”, em seguida argumenta que a homogeneidade social é uma “forma precária”, que sempre estará a mercê de elementos agitados, compostos por aqueles que não se aproveitam da produção, ou se aproveitam insuficientemente segundo seu desejo, ou simplesmente, que não podem suportar os freios que a homogeneidade põe à agitação”, e nesse sentido, “elementos imperativos” são acionados para “aniquilar ou reduzir a uma regra as diferentes forças desordenadas”

Propõe o Estado como formação intermediária das classes homogêneas e as instâncias soberanas (§3)

O Estado é o resultado das modificações produzidas pelo contato entre parte da sociedade homogêneas com seus elementos imperativos (reis e chefes de exército ou nação). Essa parte torna-se uma formação intermediária entre as classes homogêneas e as instâncias soberanas”, que adquire um caráter obrigatório dessas instâncias, sendo possível se exercer a soberania somente por seu intermédio. Essa formação não é uma “existência valida em si (heterogênea)”, mas uma atividade cuja utilidade se manifesta em relação ao outro

Descreve a função do Estado em termos práticos como um duplo jogo de autoridade e adaptação (§4,5)

A prática parlamentar é a expressão do mecanismo interno de “adaptação necessária a homogeneidade”, entretanto contra as “forças inadmissíveis”, o Estado opta pela autoridade. “Sendo o Estado democrático ou despótico, a tendência que prevalece é a adaptação ou a autoridade”; Na democracia, a força vem de uma “homogeneidade espontânea que é fixada e tida como regra; o princípio de nação, soberania, se enfraquece devido ao fato dos indivíduos isolados se considerarem como “fins com relação ao Estado… existiria para eles antes de existir para a nação”, surge uma vida pessoal que possui um valor incomparável a “existência homogênea”

3. Dissociações, críticas da homogeneidade social e do Estado

Descreve o processo de dissociação tendencial da existência social homogênea (§1,2)

As forças heterogêneas da sociedade agem constantemente, e embora o Estado seja suficiente para mantê-las na impotência através da sua coerção, sempre corre o risco de sucumbir a uma dissociação interna por parte da sociedade que não domina, senão pela forma constritiva”; As inúmeras contradições do sistema produtivo carregam uma tendência a uma dissociação, que de maneira isolada não atinge “formas agudas e perigosas”, mas quando “uma parte apreciável da massa de indivíduos homogêneos deixa de ter interesse na conservação da forma da homogeneidade” (não pela sua homogeneidade, mas justamente por uma perda de caráter próprio), associam-se espontaneamente a forças heterogêneas já existentes e compostas.

Descreve o processo de junção da massa homogênea dissociada ao heterogêneo (§3,4)

A desintegração é apenas a “forma negativa da efervescência social”, pois os elementos dissociados, ao se juntar as formações heterogêneas já existentes “tomam-lhes emprestado um caráter novo, o caráter positivo geral da heterogeneidade”, esse é o modo positivo da efervescência, que operam uma “alteração completa” nos elementos dissociados, que passam a ter a sua ação “condicionada pela estrutura atual desta parte”, que “tende a uma estrutura definida”, que não acontece de maneira “informe e desorientado”; “o modo de solução de contradições econômicas agudas depende ao mesmo tempo do estado histórico e das leis gerais da região social heterogênea”, ou seja, os elementos heterogêneos que se formam de maneira estruturada influenciam diretamente “o modo de solução de contradições econômicas agudas” da parte homogênea.

4. A existência social heterogênea

Compara os problemas na assimilação dos elementos heterogêneos pela psicologia social e pela ciência (§1,2)

Apresenta o problema da psicologia social ao tratar sobre uma forma que “não foi ainda objeto de uma determinação positiva; A assimilação científica também não é possível sobre os elementos heterogêneos, justamente pelo caráter homogêneo da ciência (ciência em função da homogeneidade).

Esclarece a ausência de satisfação funcional na assimilação científica dos elementos heterogêneos (§3)

Uma vez que os objetos heterogêneos não satisfazem uma satisfação funcional, não são mantidos no campo de atenção das ciências.

Concebe uma noção de inconsciente como um dos aspectos do heterogêneo (§4)

Associa a exclusão dos elementos heterogêneo a censura dos elementos inconscientes (excluídos do eu consciente)

Esclarece algumas noções sobre o termo heterogêneo (§4,5)

Defende que o número de incursões ao heterogêneo é insuficiente para oferecer uma “revelação de sua existência positiva e claramente separada”, portanto, realiza algumas considerações sobre o termo heterogêneo

Limita o sagrado como “forma restrita” com relação ao heterogêneo (§5)

Exemplifica os fatos precisos que caracterizam as noções de “mana” e “tabu” e aponta as dificuldades de se estabelecer uma “compreensão explicita do sagrado”, apresentando a tentativa de Durkheim

Sintetiza a maneira implícita pelo qual o sagrado é conhecido e a relação com a coisa heterogênea (§5)

Relaciona a reação as coisas heterogêneas e sagradas, justificando essa reação devido a coisa heterogênea ser “imbuída de uma força desconhecida e perigosa

Apresenta o conjunto dos resultados do dispêndio improdutivo como parte do mundo heterogêneo (§5)

Define esse conjunto como “tudo o que a sociedade homogênea rejeita, seja como dejeto, seja como valor superior transcendente, apresentando diversos exemplos dessas rejeições

Descreve as reações afetivas provocadas pelos elementos heterogêneos e a relação com objetos inertes (§5)

Argumenta que “é possível supor que o objeto de toda reação afetiva é necessariamente heterogêneo (senão geralmente, pelo menos em relação ao sujeito)”, apontando a “violência, desmesura, delírio e loucura como caracterizadores dos elementos heterogêneos” e a relação com objetos inertes …

Compara a realidade dos elementos heterogêneos e dos homogêneos e os objetos da atividade erótica (§5)

A realidade homogênea se apresenta com “aspecto abstrato e neutro dos objetos estritamente definidos e identificados”. A realidade heterogênea é “da força e do choque”, uma mudança que parece não operar “no mundo dos objetos, mas somente no dos julgamentos do sujeito”. Mas isso não os torna subjetivos, os objetos da atividade eróticas tem base em sua natureza objetiva. Mas ainda assim é possível deslocar o valor excitante de um elemento sobre outro análogo ou vizinho”. Os elementos fundamentais podem adquirir a mesma importância que determinados símbolos: “a parte pode ter o mesmo valor que o todo”

Propõe a estrutura do conhecimento de uma realidade heterogênea em detrimento a estrutura de conhecimento homogênea (§5)

Enquanto a realidade homogênea é pautada na ciência, a heterogênea se funda em um pensamento místico (“dos primitivos e nas representações do sonho: é idêntica à estrutura do inconsciente”). A vida corrente como totalmente outra, incomensurável”.

Apresenta exemplos de elementos heterogêneos (§6,7)

Por meio dos exemplos das lideranças fascistas e das camadas sociais mais baixas

Explora a forma das lideranças fascistas como elemento heterogêneo (§6)

Explica porque os “líderes fascistas pertencem incontestavelmente à existência heterogênea”, enquanto totalmente outros com relação aos “políticos democratas”, apresentam uma “força que os situa acima dos homens, dos partidos e mesmo das leis”, uma força hipnótica (a força de um líder é “análoga aquela que se exerce na hipnose”.

O fluxo afetivo (“função da consciência comum de poderes e energia cada vez mais violentos, cada vez mais desmedidos”) se acumulam nesse líder, e essa acumulação em “uma só pessoa” é o um elemento distintivo da formação fascista dentro do domínio do heterogêneo. Essa forma monárquica, não exclusiva a Itália e Alemanha, indica “que se devem renunciar, sob coerção, às necessidades naturais imediatas dos homens em benefício de um princípio transcendente”, sem precisar de nenhuma explicação exata.

Explora as camadas sociais mais baixas como elemento heterogêneo (§7)

A repulsão as classes mais baixas fazem com que essas não sejam assimiladas pelo conjunto dos homens. A Índia apresenta um caso onde as essas classes são vistas de maneira quase como sagrada, enquanto “intocáveis”, e embora os países de civilização avançada sejam “menos ritual” e que essa qualidade intocável não seja “transmitida pela hereditariedade”, ainda assim, o ser humano marcado pela miséria cria entre si e o outro (“expressão do homem normal”), “um fosso intransponível”, a “calamidade material” influência diretamente na ordem psicológica. Exemplifica as reações dos homens felizes que “não sofreram a redução homogênea”que podem levar a violência , interpretada como “um desafio à razão”

5. O dualismo fundamental do mundo heterogêneo

Revela a compatibilidade entre as formas heterogêneas e o sagrado (§1)

Os heterogêneos constituído tanto pelos lideres, quanto pelos miseráveis possuem características sagradas, e no caso do primeiro, torna-se mais evidente por ser objeto de um culto (diferente da miséria)

Relaciona as duas formas sagradas (puras e impuras) as manifestações opostas do heterogêneo (§2)

As formas elevadas e imperativas (superiores) e as formas miseráveis (inferiores) possuem em algum sentido uma “identidade dos contrários” e essa oposição é um dos elementos fundamentais da heterogeneidade — “divide o conjunto do mundo heterogêneo”. Afirma que nas sociedades evoluídas, formas “heterogêneas indiferenciadas são raras” e que em geral se reduzem a essa “oposição de dois contrários”

6. A forma imperativa da existência heterogênea: a soberania

Explica o vocabulário tradicional (nobre, elevado, superior) usado para descrever a ação fascista (§1,2)

O fascismo acena para “sentimentos tradicionalmente definidos como elevados e nobres, construindo a autoridade como princípio incondicional, acima do julgamento utilitário. Bataille ressalva, porém, que o uso dessas palavras (superior, nobre, elevado) “não implica uma aquiescência: elas só designam o pertencimento a categorias historicamente definidas, categorias que ele considera “necessariamente híbridas, sem alcance” e que preferiria evitar, se possível — questionando ironicamente se há alguma razão “confessável” para valorizar a nobreza em detrimento da miséria material, que também “torna totalmente outro quem a sofre.

Descreve a superioridade (soberania imperativa) e a heterogeneidade do mestre com relação a opressão e domínio (§3-5)

Propondo uma “significação dos valores superiores” através dos “qualificativos tradicionais”, apresenta a superioridade como o “conjunto dos aspectos notáveis”, que podem levar a uma atração ou repulsão nas diferentes situações onde é possível dominar e oprimir os semelhantes — em razão da idade, da fraqueza física, do estatuto jurídico, ou da necessidade de submissão a um só. Essa dominação se manifesta em situações definidas (pai/filhos, chefe militar/exército e população civil, mestre/escravo, rei/súditos), às quais se somam situações mitológicas que, por sua natureza fictícia, condensam os aspectos da superioridade.

O simples fato de dominar seus semelhantes já implica a heterogeneidade do mestre: ele designa sua própria natureza como “totalmente outra”, sem poder apreendê-la racionalmente. Essa heterogeneidade não se opõe menos à do escravo — cuja natureza heterogênea se confunde com a imundície de sua condição material —, mas se forma em sentido oposto: “aquela do mestre se forma em um ato de exclusão de toda imundície, ato cuja direção é a pureza, mas cuja forma é sádica.

Afirma o fascismo como uma forma de autoridade real (§6)

“O valor imperativo acabado se apresenta sob a forma de autoridade real ou imperial”, na qual se manifestam, no mais alto grau, as tendências cruéis e a necessidade de “realizar e idealizar” a ordem que caracteriza toda a dominação. A autoridade fascista “não mostra menos esse caráter duplo — é apenas uma das numerosas formas da autoridade real, “cuja descrição geral constitui o fundamento de toda descrição coerente do fascismo”.

Argumenta que a soberania política é uma “atividade sádica claramente diferenciada” (§7)

A psicologia considera que as tendências sádicas e masoquistas estão associadas, entretanto, não é como essas tendências se apresentam na sociedade, onde se mostram como “instancias distintas”. A atitude sádica pode ser manifestada como “uma pessoa imperativa excluindo qualquer participação das atitudes masoquistas correspondentes”, a “exclusão das formas imundas” não é erótica (o erótico também é rejeitado) — “nenhuma atividade erótica pode ser associada à crueldade” e, assim, “o sadismo acede a uma pureza deslumbrante”, como em atitudes religiosas. Embora existam exceções (como as “orgias de sangue”, em geral:

“a forma real imperativa realizou historicamente, no interior do domínio heterogêneo, uma exclusão das formas miseráveis ou imundas suficiente para encontrar, em certo plano, uma conexão com as formas homogêneas”

Constata que a rejeição as formas miseráveis aproximam as forças imperativas da sociedade homogênea (§8,9)

A sociedade homogênea “afasta qualquer elemento heterogêneo, imundo ou nobre” do mesmo modo; porém, a rejeição das formas miseráveis tem “apenas um valor constante fundamental”, já que qualquer recurso às suas reservas de energia é tão perigoso quanto a subversão. Como o ato de exclusão das formas miseráveis associa necessariamente as formas homogêneas e as formas imperativas, estas últimas “não podem mais ser pura e simplesmente rejeitadas”: a sociedade homogênea passa a utilizar as forças imperativas contra os elementos que lhe são mais incompatíveis, escolhendo aquelas que historicamente “mostraram agir… no sentido mais favorável”. Essa dependência tem origem, na “incapacidade da sociedade homogênea de encontrar em si mesma uma razão de ser e de agir — assim como “é a hostilidade sádica dos soberanos contra a população miserável que os aproxima de toda formação buscando manter esta última na opressão”.

Apresenta as contradições do estabelecimento do rei como razão de ser da sociedade homogênea e a mutua transformação realizada nas formas heterogênea e homogênea (§10,11)

Uma vez que o rei é o objeto em que a sociedade homogênea encontra a sua “razão de ser”, deve se comportar para que essa relação seja mantida, ou seja, para que “a sociedade homogênea” possa “existir por ele”. Entretanto, essa exigência de comportamento entra em confronto direto com a heterogeneidade fundamental do rei garantida pelas numerosas proibições de contato (tabus)“. A heterogeneidade da instância imperativa (o rei) não pode ser mantida em estado livre, e por isso, direciona-se a sua paixão destruidora (o sadismo) para “as sociedades estrangeiras”, “classes miseráveis” e “elementos externos ou internos hostis à homogeneidade”.

“A união, princípio da homogeneidade, é apenas um fato tendencial, incapaz de encontrar em si mesmo um motivo para exigir e impor sua existência e, na maioria das circunstâncias, o recurso a uma exigência proveniente de fora tem o valor de uma necessidade primeira”

A união da homogeneidade não se sustenta por si só, pois na maioria dos casos se faz necessário um apelo exterior ao homogêneo.

“Ora, o dever ser puro, o imperativo moral, exige o ser por si, quer dizer, o modo específico da existência heterogênea. Mas esta existência, precisamente, escapa, no que concerne a ela mesma, ao princípio do dever ser, e não pode em nenhum caso ser-lhe subordinada: ela acede imediatamente ao ser (em outros termos, ela se produz como valor sendo ou não sendo, e nunca como valor devendo ser)”

Ou seja: o “dever ser puro” — a exigência que a própria homogeneidade formula, por não encontrar em si mesma razão de existir — busca o “ser por si” próprio do heterogêneo (o rei), mas esse “ser por si” escapa ao dever ser e não pode lhe ser subordinado; ele “acede imediatamente ao ser”, “sendo ou não sendo, e nunca como valor devendo ser”.

Dessa incompatibilidade resulta uma modificação mútua nas duas partes:

“a resolução desta incompatibilidade impõe nas existências heterogêneas o dever ser da existência homogênea. Assim, a heterogeneidade imperativa não representa somente uma forma diferenciada em relação à heterogeneidade vaga: supõe, além disso, a modificação da estrutura das duas partes, homogênea e heterogênea, em contato.”

Por um lado, “a formação homogênea, vizinha da instância régia, o Estado, toma emprestado a essa instância o seu caráter imperativo” e “parece aceder à existência por si realizando o dever ser desnudado e frio do conjunto da sociedade homogênea”. Mas, na realidade, “o Estado… não [é] mais que a forma abstrata, degradada, do dever ser vivente exigido, no cume… ele é apenas a homogeneidade vaga transformada em coerção”.

Por outro lado, esse mesmo modo de formação intermediário “penetra por reação a existência imperativa”: ao longo dessa introjeção “a forma própria da homogeneidade torna-se, dessa vez realmente, existência por si negando-se a si mesma: ela se absorve na homogeneidade e se destrói enquanto estritamente homogênea pelo fato de que, transformada em negação do princípio de utilidade, recusa-se qualquer subordinação”.

Ainda assim,

“penetrado profundamente pela razão de Estado, o rei não se identifica… com esta última: integralmente, mantém o caráter distinto próprio da maioria divina. Ele escapa ao princípio específico da homogeneidade… os direitos do rei são incondicionais.”

Descreve a soberania enquanto forma tendencial de toda autoridade, que se reduz à unidade e sustenta a redução homogênea (§12,13)

Apontando que a possibilidade da soberania “trouxe a servidão infinita que degrada a maior parte das formas de vida humanas”, Bataille analisa a soberania sob sua forma tendencial“tal como historicamente vivida pelos sujeitos responsáveis por seu valor atrativo, independentemente, todavia, de uma realidade particular”. Ela apresenta um caráter nobre, puro, como um local isento das intrigas de interesses mundanos, onde “realiza o ideal da sociedade e do curso das coisas”. Ao mesmo tempo, é autoridade estrita: está acima tanto da sociedade homogênea quanto da população miserável ou da hierarquia aristocrática que dela emana, e “exige de uma maneira encarniçada a repressão do que lhe é contrário”, confundindo-se, em sua forma definida, “com os fundamentos heterogêneos da lei” — sendo, ao mesmo tempo, “a possibilidade e a exigência da unidade coletiva”.

“…é na órbita da realeza que se elaboram o Estado e suas funções de coerção e de adaptação; é em benefício da grandeza real que se desenvolve, tanto como destruição quanto como fundação, a redução homogênea”

Colocando-se como “princípio da associação de elementos inumeráveis”, o poder régio “se desenvolve espontaneamente enquanto força imperativa e destrutiva contra qualquer outra forma imperativa que lhe poderia ser oposta” — dessa forma, manifesta “a tendência fundamental e o princípio de toda a autoridade”: “a redução à unidade pessoal, a individualização do poder”.

Enquanto a existência miserável se produz necessariamente como multidão e a sociedade homogênea como redução a uma medida comum, a instância imperativa “se desenvolve necessariamente no sentido de uma redução à unidade sob a forma de um ser humano excluindo a própria possibilidade de um semelhante”“uma forma radical da exclusão exigindo uma avidez”.

7. A concentração tendencial

Descreve os princípios da concentração dos poderes religioso e sagrado no poder real (§1-3)

P.S: Bataille afirma que a base para entender as funções militares e religiosa em relação a forma imperativa esta em Freud, Psicologia das massas e a análise do eu

A coexistência de domínios distintos (soberania real, autoridade religiosa e potência militar) faz a tendência à concentração parecer contraditória; no entanto, o poder real é composto por elementos constitutivos dos poderes religioso e militar — diferente desses poderes, o poder real não é autônomo, podendo ser definido exata e unicamente como “a concentração realizada desses dois elementos formados em duas direções diferentes” — independente das formas de renascimento desses poderes ao longo da história, esse “princípio de sua concentração tendencial sob a forma de uma soberania una” se manteve inalterado (não bastou uma recusa formal para impedir “a cruz de perambular pelos degraus do trono com o sabre”).

Independente da forma de realização dessa concentração (se pela força, ou espontânea), “mesmo no caso em que a realeza é usurpada, a possibilidade da reunião dos poderes dependeu de suas afinidades fundamentais e, sobretudo, de sua concentração tendencial”.

Propõe o fascismo enquanto uma reunião das autoridades militar e religiosa (§4)

Justifica que a consideração dos princípios dessa concentração tendencial são relevantes pois o fascismo “reúne uma vez mais as autoridades militar e religiosa para realizar uma opressão total — afirmando que (buscando isolar o juízo político) “toda realização ilimitada das formas imperativas tem o sentido de uma negação da humanidade enquanto valor dependente do jogo de suas oposições internas”.

Compara o fascismo ao bonapartismo, onde ambos podem ser definidos como “uma reativação aguda da instância soberana latente, mas com um caráter de alguma forma purificado — purificação que se dá pelo fato de que as milícias que substituem o exército têm imediatamente o próprio “poder como objeto”.

8. O exercito e os chefes do exército

Descreve a organização afetiva do exército (§1-3)

Bataille argumenta que o que determina o caráter imperativo do exército não é o fato de possuírem as armas, mas sim a sua organização interna (disciplina e hierarquia), que o tornam “a sociedade nobre por excelência”. Uma vez que a natureza das armas é outra (carnificina, morte etc.) e o próprio “horror ambíguo” da guerra possui uma “heterogeneidade baixa (a rigor, indiferenciada)”, a nobreza das armas necessita de uma “heterogeneidade intensa” (sendo a disciplina e a hierarquia apenas “formas e não fundamentos da heterogeneidade”), e por isso:

“A direção elevada, exaltante, das armas supõe a unificação afetiva necessária a sua coesão, quer dizer, ao seu valor eficaz”

Essa unificação tem o seu caráter afetivo manifesto na “forma de aderência do soldado ao chefe do exército”, que transforma a glória desse último em sua própria — glória essa (“atração pura e intensa”) que transforma toda a carnificina nojenta da guerra em seu oposto, constituindo-se então como uma “espécie de polo afetivo”, que se opõe à natureza ignóbil dos soldados.

Os soldados, pertencentes em princípio à parte infame da população (“classes miseráveis”), fundam a organização afetiva do exército sobre essa infâmia social — e essa estrutura se mantém independentemente da origem real dos recrutas: mesmo que se eliminasse todo recrutamento das classes miseráveis, isso “não seria suficiente para mudar a estrutura profunda do exército”. Esses soldados se tornam “elementos negados” violentamente, e essa negação violenta é encarnada no chefe (imperativo), cuja glória anula “o populacho infame (que constitui o exército) enquanto tal — da mesma maneira que ele anula a carnificina enquanto tal”.

“Seres humanos incorporados em um exército não são mais do que elementos negados, negados com uma espécie de ira (de sadismo) manifesta no tom de cada comando, negados na parada pelo uniforme e pela regularidade geométrica perfeita dos movimentos cadenciados.”

Explica a negação da perspectiva da psicologia social (§4,5)

“toda ação social afirmada toma necessariamente a forma psicológica unificada da soberania”

Partindo do ponto de vista da psicologia social, Bataille defende que a negação imperativa aparece em geral como “o caráter social próprio da ação” — toda forma inferior, toda ignomínia, sendo “por definição socialmente passiva”, transforma-se em seu contrário pela simples passagem à ação. A carnificina, enquanto resultado inerte, é ignóbil; mas esse “valor heterogêneo ignóbil” torna-se nobre quando deslocado sobre “a ação social que o determinou” — “ação de matar e nobreza foram associadas por laços históricos indefectíveis” —, contanto que essa ação se afirme efetivamente como tal, isto é, que assuma livremente o seu caráter imperativo. É justamente “o fato de assumir com toda a liberdade o caráter imperativo da ação” que é o próprio do chefe.

Argumenta sobre o papel da “unificação” na modificação das estruturas que caracterizam a “homogeneidade superior” (§5-7)

  1. Expõe nova possibilidade: apreender o papel da “unificação (a individualização)” na modificação das estruturas que caracterizam a “homogeneidade superior”.
  2. Descreve a realização da forma homogênea interior: a partir de um impulso imperativo, os elementos desordenados que compõem o exército realizam essa forma homogênea “em razão da negação da qual o caráter desordenado de seus elementos é objeto”, ou seja, essa massa que antes era desordenada, caótica, passa, nas palavras de Bataille, “do estado amorfo à rigidez agressiva”.
  3. Conclui que a massa negada torna-se afetivamente (em comportamentos psicológicos simples, por exemplo “marchar” e “sentido!”) uma “coisa do chefe”: o comando do chefe, por exemplo, ao colocar a tropa em sentido, absorve-a totalmente na própria “negação de si mesma”.
  4. Qualifica o exército como a “forma regular (geometricamente) da soberania imperativa”: associando o sentido a um “movimento trópico… geotropismo negativo” (quase como uma resposta biológica), não somente o chefe, mas todo o conjunto do exército é elevado a essa forma regular. Assim, “a infâmia implicada dos soldados não é senão uma infâmia na base que, sob o uniforme, se transforma em seu contrário, em ordem e brilho”.
  5. Descreve a alteração profunda no “modo da heterogeneidade”: o exército sofre essa homogeneização interna sem que sua heterogeneidade fundamental decresça.
  6. O exército subsiste, no meio da população, com uma maneira de ser “totalmente outra”, mas essa maneira de ser é ela mesma soberana — ligada à dominação e ao caráter imperativo do chefe, que é comunicado aos seus soldados (não uma subordinação, mas um compartilhamento da natureza soberana do chefe).
  7. Associa a honra e o dever como fatores determinantes na “direção dominante do exército”: desligada de seus fundamentos afetivos (infâmia e carnificina), essa direção passa a depender de uma heterogeneidade contrária a essa primeira — a heterogeneidade da honra e do dever, encarnados na pessoa do chefe.
  8. Ressalva: se o chefe não for subordinado a nenhuma instância real ou ideia (isto é, se for autônomo), o dever se encarna nele pessoalmente, “da mesma maneira que no rei”.
  9. Aponta honra e dever como formas tendenciais que situam a existência militar acima da existência homogênea, como imperativo e pura razão de ser: a honra e o dever são expressos na geometria dos desfiles; embora tenham alcance limitado a certo plano de ações e sejam compatíveis com crimes infinitamente covardes, bastam para fazer da dominação interna do exército um dos elementos fundamentais da autoridade psicológica suprema instituída acima da sociedade coagida.
  10. Extrai a consequência da integração de um poder militar em um poder social: o poder do chefe se dá apenas internamente, na estrutura do exército, gerando uma homogeneidade interna, e não social — ao passo que o poder da realeza só existe em relação à sociedade homogênea. Por isso, torna-se necessário adquirir as “modalidades próprias do poder régio” para que o poder militar se integre à administração do Estado.

9. O poder religioso

Defende que a religião é a fonte da autoridade social (§1,2)

  1. Propõe a tese da necessidade da atração religiosa para a efetivação do domínio: se o chefe quiser exercer domínio sobre a sociedade, precisará adquirir “os elementos de uma atração externa, uma atração religiosa válida para toda a população” — não existem dominações exclusivamente militares que sejam duráveis. Isso porque “a força armada simples, material, não pode fundar nenhum poder: ela depende em primeiro lugar da atração interna exercida pelo chefe (o dinheiro é insuficiente para realizar um exército)“.
  2. Compara os papéis exercidos pela atração religiosa e pela atração militar para a constituição da religião como fonte de autoridade social: a atração militar pode sim apresentar elementos da forma religiosa, entretanto, ela não tem “valor primordial” em relação à atração religiosa.
  3. Associa a introdução da hereditariedade a uma forma religiosa que adquire seu princípio do sangue; já o poder militar depende do valor pessoal.

Esclarece sobre as modificações de estrutura na sociedade causada pela heterogeneidade religiosa (§3-5)

  1. Justifica a dificuldade de significação explícita ao que é propriamente religioso no sangue ou nos aspectos régios: adentrando então na “forma nua e ilimitada da heterogeneidade indiferenciada”.
  2. Extrai as consequências das modificações de estrutura causadas por essa heterogeneidade religiosa: abrem o campo para se tornarem “projeção livre das formas afetivas gerais, como a angústia ou a atração sagrada”.
  3. Tanto no contato fisiológico da hereditariedade como pelos ritos nas sagrações, o que é transmitido não são as próprias modificações de estrutura, mas uma “heterogeneidade fundamental”. 1. Comentário: Pode se dizer em suma que, o que se herda tanto do sangue, quanto de um ritual sagrado, não carrega as mudanças da estrutura de maneira bem definida, o que se herda é uma heterogeneidade fundamental. Essa indefinição abre espaço para a manifestações de formas afetivas
  4. Qualifica a comunidade de estrutura entre a natureza régia e a natureza divina: ambas correspondem a “fatos inequívocos” (identificações com o deus, genealogias míticas, culto imperial romano ou xintoísta, teoria cristã do direito divino); o rei é, de qualquer forma, considerado como “emanação da natureza divina, com tudo o que o princípio da emanação carrega de identidade quando se trata de elementos heterogêneos” — ressalvando que, embora não seja possível, “em uma rápida exposição”, tornar sensível todo o conjunto de movimentos afetivos envolvidos, “uma simples aproximação possui em si um valor significativo suficiente”.
  5. Comentário: Para compreendermos o que há de propriamente religioso no rei, é preciso perceber que ele compartilha origem e estrutura com a natureza divina — o rei é entendido como emanação da natureza divina, não apenas como seu representante.
  6. Propõe que as modificações de estrutura são realizadas pela própria posição de soberania: a evolução da representação do divino (“a partir da violência livre e irresponsável”) é caracterizada por “notáveis modificações de estrutura”, que só explicam aquelas que caracterizam “a formação da natureza da realeza. A estrutura heterogênea é dirigida pela própria posição de soberania nos dois casos (o divino e o real), que concentra os atributos e as forças — entretanto, Deus é representado por forças compostas de uma existência fictícia (“sem a limitação ligada à necessidade de realizar”), tornando possível chegar a esquemas mais perfeitos, mais “puramente lógicos”.
  7. Comentário: A figura do rei se transformou historicamente tal qual Deus, por meio de modificações estruturais. Assim como Deus abandona a “violência livre e irresponsável” (o Deus do velho testamento era muito mais cruel). A lógica interna que rege essa transformação é a da soberania (capítulo 6), que expressam tendência à unidade, à concentração (capítulo 7). Essa concentração pode atingir uma forma “pura e perfeita” devido a sua “existência fictícia”, que não enfrenta a fricção da realidade concreta (“sem limitação ligada a necessidade de realizar”)

Qualifica o “ser supremo dos teólogos e dos filósofos” (§6)

Para Bataille, esse ser supremo dos teólogos e filósofos é “a introjeção mais profunda da estrutura própria da homogeneidade na existência heterogênea” — ou seja, herdam características da homogeneidade e trazem para dentro da existência heterogênea.

Deus, do ponto de vista teológico, realiza a “forma soberana por excelência”. No entanto, uma contrapartida dessa possibilidade de realização é implicada pelo caráter fictício da existência divina: sua natureza heterogênea, não possuindo o valor limitativo da realidade (retomando o ponto anterior sobre a ausência de “necessidade de realizar”), pode ser “eludida em uma concepção filosófica” — reduzida a uma “afirmação formal de modo algum vivida” (isto é, puramente abstrata, esvaziada de qualquer vivência heterogênea concreta).

Na ordem da especulação intelectual livre, é possível substituir a ideia a Deus como “existência e poder supremos”, o que de fato implica, em certa medida, a revelação de uma “heterogeneidade relativa da Ideia” — como acontece quando “Hegel eleva a Ideia acima do simples dever ser”.

  • Comentário: Bataille distingue duas vias a partir do mesmo Ser Supremo. Pela via teológica, Deus permanece vivido, afetivo — mantém carga heterogênea real. Pela via filosófica (como em Hegel, que substitui Deus pela Ideia), a mesma posição estrutural é preservada, mas esvaziada de vivência — vira pura afirmação formal, abstrata, revelando apenas uma heterogeneidade “relativa” da Ideia, e não mais a heterogeneidade plena e vivida do Deus religioso.

10. O fascismo enquanto forma soberana da heterogeneidade

Explora os elementos que tornam o fascismo forma soberana da heterogeneidade (§1-4)

  1. Justifica por que o fascismo é a expressão de uma forma soberana da heterogeneidade: essa “agitação de fantasmas — aparentemente anacrônicos —” (reis, deuses, chefes militares, descritos nos capítulos anteriores) passaria por vã se o fascismo não tivesse, sob nossos olhos, “retomado e reconstituído da base ao topo — partindo por assim dizer do vazio” — o próprio processo de fundação do poder tal como já foi descrito.
  2. Compara a formação do Islã nascente com o fascismo: antes do fascismo, só houve um exemplo de “brusca formação de um poder total”, que fosse militar e religioso, e que não se apoiasse em nada estabelecido antes: o Islã (“Califado Islâmico”). O Islã é comparável ao fascismo “por sua fraca riqueza humana” — não tinha sequer o recurso de uma pátria, muito menos de um Estado constituído. O Estado, para os movimentos fascistas, foi apenas “uma conquista… um meio… um quadro”, e “a integração da pátria não muda o esquema de sua formação”.
  3. Ambos representam “a constituição de um poder heterogêneo total que encontra sua origem manifesta na efervescência atual”.
  4. Revela o fenômeno da concentração tendencial presente no fascismo: sua fundação é militar e religiosa, “sem que os elementos habitualmente distintos possam ser separados uns dos outros”.
  5. Explora o aspecto militar (predominante) no fascismo: as relações afetivas que ligam um membro do partido ao líder “são análogas em princípio àquelas que unem o chefe e seus soldados”.
  6. A pessoa imperativa do líder tem o alcance de uma “negação do aspecto revolucionário fundamental da efervescência drenada por ele”: “a revolução afirmada como um fundamento é ao mesmo tempo fundamentalmente negada desde a dominação interna exercida em termos militares sobre as milícias” — dominação essa que não está subordinada aos atos de guerra reais, estabelecendo-se como um meio-termo de uma dominação externa sobre a sociedade e o Estado, o meio-termo de um “valor imperativo total”.
  7. Qualifica o valor religioso do chefe como valor fundamental (senão formal) do fascismo: no fascismo, se fazem presentes qualidades das duas dominações (“interna e externa, militar e religiosa”), decorrentes da “homogeneidade introjetada” (disciplina, dever, ordem) e da “heterogeneidade essencial” (violência imperativa, chefe como objeto transcendente da afetividade coletiva). Entretanto, é a forma religiosa que caracteriza a atividade dos milicianos com uma “tonalidade afetiva própria”, distinta daquela “do soldado em geral” — no fascismo, o chefe é a emanação da “existência gloriosa de uma pátria alçada ao valor de uma força divina”.
  8. Comparando-se ao Islã, no fascismo a pátria desempenha o mesmo papel que Alá encarnado em Maomé ou no Califa.
  9. Descreve o fascismo como concentração, condensação de poder — significação geral que se aplica a várias direções; no topo: reunião consumada das forças imperativas, sem deixar de lado nenhuma fração social.
  10. Condensação de superioridade: em relação com um “complexo de inferioridade latente” — presente tanto na Itália quanto na Alemanha. Por isso, “não é concebível que [o fascismo] tenha alguma vez podido ser o produto autóctone e específico” de países que já tenham atingido uma soberania inteira e consciente de si.
  11. Oposição ao socialismo: é reunião de classes, não por adesão consciente, mas porque “elementos expressivos de cada classe foram representados nos movimentos de adesão profundos que culminaram na tomada do poder”.
  12. Tipo específico da reunião: emprestado à afetividade propriamente militar — elementos representativos das classes exploradas foram compreendidos no processo afetivo apenas pela negação de sua natureza própria, “da mesma maneira [que] a natureza social de um recruta é negada por meio dos uniformes e dos desfiles” (retomando o capítulo 8).
  13. Explora o valor significativo da formação do chefe, que determina o esquema do processo fundamental de formação do fascismo: esse processo “que amalgama de cima a baixo as diferentes formatações sociais” tira seu valor significativo do fato de que o chefe viveu o estado de abandono e miséria do proletariado. Mas, “assim como no caso da organização militar” (capítulo 8), o valor afetivo próprio da existência miserável é apenas deslocado e transformado em seu contrário — um alcance desmedido que dá conformação ao “tom da violência”, fundamental a todo exército e a todo fascismo.

11. O Estado fascista

Diferencia a formação fascista enquanto uma reunião dos elementos heterogêneos e homogêneos (§1,2)

Estabelece as diferenças entre a formação fascista (reunião) e a sociedade régia clássica: essa última é caracterizada “por uma perda de contato mais ou menos definida da instância soberana com as classes inferiores” — diferença que o fascismo rompe, mantendo estreita relação com as classes miseráveis. Mas o fascismo não é apenas essa proximidade: não é apenas “reunião de poderes de diferentes origens” ou “reunião simbólica de classes”, é ainda “reunião completa dos elementos heterogêneos com os elementos homogêneos, da soberania propriamente dita com o Estado” — duas reuniões distintas e paralelas.

Esclarece o papel do Estado na formação fascista: enquanto reunião, o fascismo se opõe tanto ao Islã quanto à monarquia tradicional — no caso do Islã, o Estado ainda não existia e não desempenhou nenhum papel em sua constituição; o Estado existente serviu como “quadro para o conjunto do processo fascista de aglutinação orgânica”, tornando-se um elemento central. Isso, no entanto, “não implica necessariamente” a confusão entre o Estado e a força imperativa que domina a sociedade como um todo — abrindo espaço para investigar se, em algum caso específico, essa confusão de fato ocorre.

Explora a soberania superior distinta da formação fascista (§2-4)

Explora o princípio de soberania superior distinto do fascismo: inclinado a uma “divinização hegeliana do Estado”, o próprio Mussolini reconhece, “em termos voluntariamente obscuros”, a existência de um “princípio de soberania distinto” que ele designa ao mesmo tempo como “povo, nação e personalidade superior” — mas que deve ser identificado à própria formação fascista e a seu chefe. “Povo”, nessa formulação, é definido de modo condicional: “ao menos se o povo… significa a ideia… que se encarna no povo como vontade de um pequeno número ou mesmo de um só”; não se trata “nem de raça, nem de região geográfica determinada”, mas de um agrupamento que se perpetua historicamente, unificado por uma “vontade de existência e de potência: é a consciência de si, personalidade” — personalidade essa entendida como “individualização” (que culmina no próprio Mussolini), personalidade superior que é “nação enquanto Estado”. Com isso:

  • substitui-se o velho princípio democrático de soberania da nação pelo princípio de soberania da “formação fascista individualizada”;
  • estabelecem-se as bases de uma interpretação consumada da instância soberana e do Estado.

Compara o princípio de autoridade da Alemanha nacional-socialista: diferente da Itália, não aderiu ao “hegelianismo e a teoria do Estado alma do mundo”; entretanto, a ideia mística de raça assumiu o papel de fim imperativo dessa forma fascista, encarnada na pessoa do Führer e dos seus. Embora à concepção de raça falte uma base “objetiva”, ela não é menos “subjetivamente” fundada. A necessidade de manter o valor racial acima de outros afastou teorias que colocassem o Estado nesse papel de princípio dos valores. Portanto, o que fez Mussolini — e o valor por ele atribuído ao Estado — não é necessário para uma teoria do fascismo.

Propõe as causas da identidade entre fascismo e razão de Estado: Mussolini não distinguiu formalmente a “instância heterogênea”, o que fez com que ela penetrasse profundamente no interior do Estado, e isso pode ser interpretado tanto como uma “apropriação absoluta do Estado”, quanto como uma “adaptação difícil da instância soberana” às necessidades do regime de produção homogêneo — no desenvolvimento de ambos esses “processos recíprocos” que “fascismo e razão de Estado puderam parecer idênticos”.

Justifica a soberania da forma heterogênea na dualidade das formas: as formas de vida (fascismo e razão de Estado) carregam uma oposição fundamental onde a pessoa detentora do poder carrega uma “dualidade radical de princípios”: o Führer e o Duce têm formas de atividade distintas do presidente do conselho italiano ou chanceler alemão. A origem fundamental do poder desses personagens não está na sua função oficial do Estado, “como os outros primeiros-ministros”, mas sim na “existência de um partido fascista e de sua situação pessoal à frente deste partido”. Por isso, do ponto de vista do princípio da soberania, tem-se a supremacia incondicional da forma heterogênea nessa dualidade das formas (homogênea e heterogênea).

12. As condições fundamentais do fascismo

Propõe a estrutura psicológica como base da unidade do fascismo (§1-3)

Explora as causas que levam as forças heterogêneas a atenderem aos interesses do conjunto dos capitalistas: para que os processos heterogêneos possam funcionar, é necessário que o aparelho de produção (homogeneidade fundamental da sociedade) não esteja cindido devido às suas contradições internas. Por mais “às cegas” que seja o desenvolvimento das forças heterogêneas, elas ganham necessariamente o sentido de “solução do problema apresentado pelas contradições da homogeneidade”; e, quando tomam o poder, dispõem dos “meios de coerção” necessários para arbitrar os diferendos entre elementos antes inconciliáveis — arbitragem essa que, ao excluir toda a subversão, se mantém na “direção geral da homogeneidade existente”, ou seja, atendendo aos interesses do “conjunto dos capitalistas”.

Descreve a alteração na estrutura do capitalismo: ao recorrer à homogeneidade fascista, os interesses do conjunto dos capitalistas passam a se opor aos das empresas privadas a partir do período de crise, fazendo com que a “estrutura do capitalismo” se altere profundamente — o princípio anterior poderia ser descrito como uma homogeneidade espontânea da produção baseada na concorrência, onde o interesse do conjunto dos produtores coincidia com a “liberdade absoluta de cada empresa”.

  • Diferencia a consciência alemã e italiana: os capitalistas alemães desenvolveram uma consciência sobre os perigos da liberdade individual, o que pode ter sido a origem da “efervescência e triunfo” dos nacional-socialistas; já os capitalistas italianos preocupavam-se somente com o caráter indissolúvel de seus conflitos com os operários.

Propõe que “a unidade do fascismo se encontra na sua estrutura psicológica própria e não nas condições econômicas que lhe servem de base”: embora admita que um “desenvolvimento lógico geral da economia” dê aos diferentes fascismos um “sentido econômico comum”, esse sentido é compartilhado também com a atividade política do governo atual dos EUA — atividade essa “absolutamente estranha ao fascismo propriamente dito”.

Argumenta que a estrutura da região heterogênea condiciona a possibilidade de realização da força necessária à satisfação do desejo e à utilização do dinheiro: a consciência de qualquer perigo econômico que se apresente ao fascismo, e a necessidade de remediá-lo, representam apenas um “desejo ainda vazio, secundado pelo rigor de um meio poderoso de apoio como o dinheiro”. A “realização da força suscetível de responder ao desejo e de utilizar as disponibilidades do dinheiro acontece somente na região heterogênea”, e a possibilidade dessa realização depende manifestamente da “estrutura atual dessa região”, que pode variar a depender de a sociedade ser “democrática ou monárquica”.

Contrasta a instância imperativa da sociedade monárquica real e da sociedade democrática (§4,5)

Aponta a contradição presente na parte superior da região heterogênea da sociedade monárquica real: nessa forma de sociedade, existe uma instância soberana (de origem formal e absoluta) que é “ligada à homogeneidade estabelecida” (ainda que se tenha mudanças, sempre orientado a essa minoria real) — a necessidade de mudança, mesmo quando existe, “não é nunca representada no interior a não ser por uma minoria prevenida”. Mas ao mesmo tempo, a autoridade do rei se confunde com toda essa manutenção das formas jurídicas e dos quadros administrativos — essa parte superior é, de uma vez, “imobilizada e imobilizadora”.

Justifica o papel das classes inferiores como aglutinadora dos elementos rejeitados pela decomposição social: uma vez que a parte superior da heterogeneidade está nessa situação de imobilidade, apenas as classes inferiores (miseráveis e oprimidas) podem entrar em movimento — o que significa, por sua vez, uma “alteração profunda em sua natureza” — devem passar, na luta contra os opressores, “de um estado passivo e difuso para uma forma de atividade consciente”.

  • Em termos marxistas: as classes devem tomar consciência de si próprias enquanto proletariado revolucionário, e não devendo se limitar a si mesmo, devem se tornar um “ponto de concentração para todo elemento social dissociado e rejeitado na heterogeneidade”; inclusive, esse “centro de atração” existe antes mesmo da tomada de consciência (“proletariado consciente”).
  • Elemento constitutivo da estrutura de conjunto que compreende não só “formas imperativas” e as “formas miseráveis”, mas também as “formas subversivas”.
    • Formas subversivas: formas inferiores quando em luta contra as formas soberanas.
    • Natureza da subversão: exigência de que o que é baixo torne-se alto e que o que é alto torne-se baixo.
  • Os elementos rejeitados na heterogeneidade pela decomposição social, portanto, só podem se reunir às formações resultantes da entrada em ação das classes oprimidas (subversão).
    • Inclusive no caso da burguesia, que se uniu contra a autoridade e se confundiu com as massas efervescentes e revoltadas; mesmo após a destruição da monarquia, os movimentos continuam a ser comandados pelo comportamento antiautoritário inicial.

Descreve a instância imperativa heterogênea da sociedade democrática e suas possibilidades: em uma sociedade democrática — “ao menos quando não está galvanizada pela necessidade de fazer a guerra” —, a instância imperativa é “reduzida a uma existência atrofiada”, e “qualquer mudança possível não parece mais necessariamente ligada à sua destruição”. Nesse caso, as formas imperativas podem até ser consideradas como um “campo livre”, aberto às possibilidades de efervescência (tal qual as formas subversivas eram na monarquia).

Aponta as causas que levam as classes inferiores a não mais aderir à solução subversiva para o escoamento de sua “efervescência”: essa instância imperativa então torna possível que, quando a sociedade homogênea sofra uma “desintegração crítica”, “os elementos dissociados não entram mais necessariamente na órbita da atração subversiva” — a atração imperativa que se forma no topo não mais condena aqueles que a sofrem ao imobilismo, tornando-se uma opção para as classes inferiores.

  • A atração imperativa no sentido da restauração e suas limitações: destaca exemplos recentes de uma atração no sentido de uma restauração, entretanto, “limitada de antemão pela natureza preestabelecida da soberania desaparecida”, implicando uma “perda de contato proibitiva entre a instância autoritária e as classes inferiores”. Cita o bonapartismo como única restauração histórica espontânea — exceção que se explica justamente por suas “fontes populares manifestas”.
    • A formação fascista francesa se formou em torno de uma atração imperativa dirigida no sentido de uma restauração dinástica, diferente da Itália, onde a monarquia “subsistia em estado reduzido”; portanto, foi precisamente “a insuficiência, juntando-se à subsistência da realeza, que necessitou da formação, à qual ela deixava ao mesmo tempo o campo livre, de uma atração imperativa inteiramente renovada e recebendo uma base popular”.

Extrai a impossibilidade da revolução operária como consequência da dualidade (duas revoluções) (§6,7)

Justifica as causas que possibilitam “conexões” e um tipo de “cumplicidade profunda” entre o fascismo e o socialismo: a sociedade então vê a formação (concorrentemente) de duas revoluções “hostis entre si e hostis à ordem social estabelecida” — ambas surgem opostas à dissociação geral da sociedade homogênea “como fator comum”, isto é, essa dissociação é o que gera, ao mesmo tempo, as duas frações rivais.

Aponta a existência de um “jogo de equilíbrio” que faz com que “o sucesso de uma das frações implica aquele da fração contrária”: isso é tanto sua causa como seu sinal (por exemplo, o crescimento do fascismo como resposta à ameaça crescente do movimento operário).

Propõe que o desfecho leva a um fortalecimento dos elementos dissociados (burgueses e pequeno-burgueses): a menos que seja possível restabelecer a homogeneidade abalada, na medida em que “a efervescência cresce”, “a importância dos elementos dissociados cresce com relação àquela dos elementos que nunca foram integrados (proletariado)”, resultando no desaparecimento das chances de uma revolução proletária (“subversão libertadora da sociedade”).

Demarca o limite dos movimentos revolucionários que se desenvolvem em uma democracia: ao menos enquanto não se fixam mais as “reações heterogêneas no sentido contrário ao das formas imperativas”, parece que toda esperança está proibida a esses movimentos revolucionários. Bataille reforça esse pessimismo com uma constatação direta: “é óbvio, com efeito, que a situação das principais potências democráticas, no território das quais joga-se a sorte da Revolução, não justifica a menor confiança” — sendo apenas a atitude “um pouco indiferente” do proletariado o que permitiu, até então, que esses países escapassem de qualquer formação fascista.

Defende um sistema de conhecimentos sobre os movimentos sociais de atração e de repulsão como uma arma (§7)

Todavia, em contraponto a esse pessimismo, “seria pueril acreditar em fechar o mundo em um esquema”: desde o início, a simples consideração das formações sociais afetivas revela os imensos recursos, a inesgotável riqueza de formas próprias a toda vida afetiva. Não apenas as situações psicológicas das coletividades democráticas são, como qualquer situação humana, transitórias, mas permanece possível vislumbrar — ainda que como “representação ainda imprecisa” — forças de atração diferentes daquelas já utilizadas, tão diferentes do comunismo (atual ou passado) quanto o fascismo se afastou das reivindicações dinásticas.

Defende o desenvolvimento de um sistema de conhecimento que permita “prever as reações afetivas sociais que percorrem a superestrutura” — e, “talvez, até um certo ponto”, dispor delas. O próprio fascismo, ao colocar em questão a existência do movimento operário, já mostrou o que é possível esperar de um “recurso oportuno a forças afetivas renovadas”. Por isso, “um sistema de conhecimentos sobre os movimentos sociais de atração e repulsão mostra-se da maneira mais despojada como uma arma”.

Fechamento do livro: o que essa vasta convulsão histórica opõe não é exatamente fascismo e comunismo, mas sim “formas imperativas radicais à profunda subversão que continua a buscar a emancipação de vidas humanas”