Primeira Meditação, Das coisas que se podem pôr em dúvida

De acordo com o “Resumo das seis meditações que se seguem”, a primeira meditação apresenta “as razões pelas quais estamos capacitados a duvidar”. O objetivo dessa dúvida geral é

  1. se “livrar de todas as espécies de preconceitos
  2. habituar o espírito a se “dissociar dos sentidos
  3. impossibilitar a dúvida do que descobrirá “posteriormente ser verdadeiro”

Nota de Refinamento É importante enfatizar que a dúvida de Descartes é metódica (um instrumento para a verdade) e hiperbólica (levada ao extremo, tratando o duvidoso como se fosse falso), diferenciando-se do ceticismo pirrónico, que duvida por duvidar.

Sobre a necessidade da negação do sentido

Descartes acredita que aceitou por verdadeiro opiniões formadas com base em “princípios mal assegurados”, e que deveria pelo menos uma vez na vida se desfazer dessas opiniões, para que seja possível

“estabelecer algo de sólido e de estável nas ciências” (P31)

Para atingir seu objetivo, Descartes adota a postura de

  • não “dar crédito às coisas que não são inteiramente certas e indubitáveis”
  • rejeitar as coisas que parecem falsas mediante “o menor motivo de dúvida”

Descartes não examinará todas as suas opiniões, pois seria um trabalho infinito, entretanto, buscará a “ruína das fundações” de seus pensamentos, os “princípios sobre os quais estavam apoiadas todas” suas antigas opiniões, fundamentos esses que são os sentidos

“Tudo o que aceitei até o presente como o mais verdadeiro e certo, aprendi-o dos sentidos ou pelos sentidos: ora, algumas vezes experimentei serem esses sentidos enganadores, e é prudente nunca se fiar inteiramente naqueles que uma vez nos enganaram” (P32)

Descartes argumenta que embora já tenha experimentado o engano dos sentidos, existem muitas coisas “das quais não se pode razoavelmente duvidar”, e por isso, questiona-se sobre como seria possível negar os sentidos

“E como poderia eu negar que estas mãos e este corpo aqui me pertencem?” (P32)

Os sonhos enquanto representações do real para Descartes

Descartes se recorda de que em seus sonhos já foi enganado por ilusões, representando coisas menos verossímeis, e chega à conclusão de que

“não há indícios conclusivos nem marcas suficientemente certas com base nos quais se possa distinguir nitidamente a vigília do sono (P33)

Sendo assim, pode se persuadir de que dorme, e a partir dessa suposição, conclui que mesmo partindo de uma hipótese em que a representação das coisas obtidas através dos sentidos sejam “falsas ilusões”, elas necessariamente precisam ser “formadas com base na semelhança de alguma coisa real e verdadeira”. Em suma, Descartes afirma que mesmo uma simulação conterá algum nível de realidade (fazendo um paralelo com quadros e pinturas).

Descartes distingue aqui entre as coisas compostas (que podem ser ilusórias) e os elementos simples e universais que as compõem, os quais resistem à dúvida do sonho. Afirma que as imagens residentes em nosso pensamento podem ser tanto verdadeiras e reais quanto simuladas e fantásticas, entretanto, todas essas imagens são formadas por coisas “mais universais”, que são “verdadeiras e existentes”. Cita alguns exemplos como: “natureza corpórea”, “extensão”, “quantidade ou grandeza”, “lugar”, “tempo”.

É a partir dessa distinção entre elementos simples e compostos que Descartes divide em dois tipos de ciências:

  • das “coisas compostas”: dúbias e incertas
    • ex: física, astronomia, medicina
  • das “coisas muitíssimo simples e muitíssimo gerais”: certas e indubitáveis
    • ex: aritmética, geometria

A Dúvida Hiperbólica e a ideia de que a bondade de Deus impediria que fôssemos enganados

Descartes levanta a questão sobre a possibilidade da existência de um Deus que busca enganá-lo o tempo inteiro

“há um Deus onipotente e pelo qual fui criado e produzido tal como sou… pode acontecer de ele ter querido que eu me engane sempre que realizo…” (P35)

Ao refletir sobre essa hipótese, pensa que um Deus soberanamente bom não permitiria esse engano total

“Mas talvez Deus não haja querido que eu fosse enganado desse modo, uma vez que se diz ser ele soberanamente bom” (P36)

O argumento de Descartes é um reductio ad absurdum (redução ao absurdo) contra a confiança ingênua na bondade divina. Através dele conclui que se a bondade de Deus fosse incompatível com o engano, ela deveria impedir qualquer engano. Como ela não impede o pequeno erro, a bondade divina não serve de garantia contra o grande erro — o que mantém a dúvida aberta e justifica a introdução posterior do Gênio Maligno.

“Contudo, fosse isso repugnante à sua bondade, ou também pareceria lhe ser absolutamente contrário permitir que me engane às vezes sem que eu, entretanto, possa duvidar que o permita” (P36)

Ainda que Deus não exista, Descartes então parte da hipótese onde algo superior (e não necessariamente Deus) tenha o originado

”… a considerar que falhar e enganar-se são uma espécie de imperfeição, quanto menos poderoso for o autor que atribuirão à minha origem, tanto mais será provável que sou a tal ponto imperfeito que me engano sempre” (P36)

Descartes chega à conclusão de que agora pode seguramente colocar em dúvida todas as suas opiniões, ou seja, estabelece a possibilidade da certeza da dúvida

“de todas as opiniões que eu outrora aceitara em minha crença como verdadeiras, não há entre elas nenhuma de que não possa agora duvidar (P36)

Ou seja, uma vez que a bondade divina não serve como garantia contra o engano, e que se enganar completamente é possível, é possível realizar o seu objetivo de não “dar crédito às coisas que não são inteiramente certas e indubitáveis” para, portanto, “estabelecer algo de sólido e de estável nas ciências”.

“Disso resulta ser necessário que eu me detenha e suspenda doravante meu juízo acerca desses pensamentos, e que não lhes atribua mais crédito do que o faria às coisas que me parecessem evidentemente falsas se desejo encontrar algo de estável e certo nas ciências” (P37)

Negando os sentidos através da hipótese do Gênio Maligno em substituição a Deus

Uma vez que com toda a certeza pode estar enganado, Descartes sabe que embora suas velhas opiniões que inevitavelmente lhe aparecerão sejam “duvidosas”, ao mesmo tempo são “muitíssimo prováveis” ao ponto de que resulta

“ter muito mais razão para nelas se crer do que para negá-las” (P37)

Uma vez que a bondade divina não garante a verdade, Descartes irá “enganar a si mesmo”, simulando que todos esses pensamentos sejam “falsos e imaginários”, dessa forma, impedindo que seus preconceitos façam pender a sua opinião mais para um lado do que para o outro, sendo assim, afirma que

“meu juízo não seja mais a partir de então dominado por maus usos e desviado do caminho reto capaz de conduzi-lo ao conhecimento da verdade… não se trata de agir, mas apenas de meditar e conhecer” (P37)

Descartes então supõe que não existe um Deus como “fonte soberana da verdade”, mas sim, um gênio maligno, “tão astucioso e enganador quanto poderoso” que faz de tudo para lhe enganar. Dessa forma, Descartes se coloca em uma posição onde nada possui a não ser seu próprio pensamento (e portanto, livre dos sentidos)

“Considerarei a mim mesmo como não possuindo mãos, olhos, carne, sangue, como destituído de quaisquer sentidos, mas crendo falsamente possuir todas essas coisas” (P38)

Se dessa forma ele não pode chegar a nenhuma verdade, ao menos pode “suspender o seu juízo”, sendo assim, o gênio maligno nada poderá lhe impor

“Eis porque tomarei meticuloso cuidado para não admitir em minha crença nenhuma falsidade e prepararei tão bem meu espírito ante todas as manhas desse grande enganador que, por mais poderoso e astucioso que seja, nada jamais poderá impor” (P38)

De acordo com Notebook LLM ( Estudando Filosofia de Maneira Autodidata) Portanto, suspender o juízo aqui significa recusar-se voluntariamente a dar assentimento a qualquer coisa que não seja 100% evidente.

Segunda Meditação, Da natureza do espírito humano e que ele é mais fácil de ser conhecido do que o corpo

De acordo com o “Resumo das seis meditações que se seguem”, na segunda meditação o espírito reconhece que é impossível ele não existir, assim como ele também pode reconhecer as coisas que lhe pertencem (natureza intelectual) e ao corpo.

Descartes inicia a sua meditação refletindo sobre o estado em que se encontra e sobre o método que utilizará para prosseguir até “topar com algo de certo”, ou descobrir com certeza que “nada há no mundo de certo”.

Conclui que precisa buscar algo certo e indubitável, usando como exemplo “Arquimedes”, que precisou de um ponto para mostrar a movimentação da terra. Como já mencionado na primeira meditação, para Descartes os métodos matemáticos eram capazes de produzir esse tipo de certeza.

Descartes percebe que, ao se encontrar em uma posição onde possivelmente a única certeza é a de que “no mundo nada há de certo”, apenas uma coisa resiste: a proposição

“eu sou, eu existo, é necessariamente verdadeira sempre que a pronuncio, ou que a concebo em meu espírito” (P41)

Essa é a primeira afirmação de Descartes, sua primeira certeza, a certeza de que ele é! Ainda que exista um gênio malvado, ele não pode fazer com que Descartes deixe de ser. Entretanto, embora saiba que é, não sabe o que é.

“O que é, então, que acreditei ser precedentemente? Sem dificuldade pensei que era um ser humano (P41)

A partir da questão “O que é ser humano”, Descartes aponta que ser humano é possuir corpo e alma

  • se considerava como possuindo rosto, mãos, braços e etc, tal como em um cadáver, que se designava pelo nome de corpo
  • considerava que se alimentava, que caminhava, que sentia e que pensava, e “referia todas essas ações à alma

Após um exame de si próprio, não consegue assegurar-se de possuir a menor das coisas que atribuiu à natureza corpórea. Dentre os atributos da alma, uma vez que não tem corpo, não consegue se alimentar, nem caminhar e nem sentir. Entretanto, pensar é um atributo que lhe pertence

”… sou, portanto, a me expressar com precisão, apenas uma coisa que pensa, isto é, um espírito, um entendimento ou uma razão…” (P44)

Através de um processo de reflexão, nega que seja o corpo, a própria alma (um ar sutil e penetrante distribuído por todos esses membros), não é nada de tudo aquilo que possa simular e imaginar, entretanto, pode estar certo de que é alguma coisa

“reconheci que eu era, e busco o que sou, eu que reconheci ser” (P44)

”… reconheço com certeza que absolutamente nada de tudo que possa compreender por meio da imaginação pertence a esse conhecimento que possuo de mim mesmo, e que é imperioso recordar e desviar o próprio espírito desse modo de conceber para que ele próprio possa reconhecer muito distintamente sua natureza” (P45)

Ao refletir novamente sobre o que era, Descartes conclui que sentir, no contexto da dúvida, é um modo de pensar: enquanto não se pode garantir que os sentidos correspondam a algo externo, a experiência de sentir (o aparecer da sensação para a consciência) pertence ao cogito. Não se trata de eliminar o sentir, mas de redefini-lo como ato do pensamento. Portanto, Descartes novamente se apropria de suas sensações.

“sou o mesmo que sente isto é, que recebe e conhece as coisas como se pelos órgãos dos sentidos” (P46)

Descartes nota que o seu espírito é incapaz de se manter nos “justos limites da verdade”, por isso, afirma que será necessário afrouxar o freio para mais à frente retirá-lo, podendo estabelecer regras para ele e para a sua condução.

O exemplo da cera

Sobre os corpos que tocamos e vemos, Descartes se propõe a falar não dos corpos em geral, mas de um corpo em particular, nesse caso, um pedaço de cera removido de uma colmeia. Ao examinar a cera, observa que esta sofre transformações, por exemplo ao ser aquecida, mas que, entretanto, continua a ser a mesma cera. O ponto é que a identidade da cera não reside em suas qualidades sensíveis (cor, odor, dureza), pois todas mudam. O que permanece — e portanto constitui a cera enquanto tal — é algo apreendido pelo entendimento: uma coisa extensa, flexível e mutável. A cera não era propriamente as suas características físicas, mas um corpo que agora pode se apresentar de outra forma.

Sem os seus aspectos originais, o que sobra da cera é que ela é “flexível, extensa e mutável”. À medida que Descartes dirige a sua atenção mais para “as coisas que estão nela e das quais é composta”, nota que a ação pela qual a cera é percebida não é exclusivamente proveniente dos sentidos, mas também de uma “inspeção intelectual” (ou uma inspeção do espírito), e que as coisas capturadas por seus olhos só podem ser assimiladas com as faculdades do seu juízo.

Descartes acredita que a sua concepção da cera não seria possível sem um “espírito humano”. O seu entendimento da cera só reforça mais ainda que ele existe — e reforça a tese central desta meditação: o espírito é mais fácil de conhecer do que o corpo.

”… concebemos os corpos somente pela faculdade do entendimento que está em nós e não pela imaginação nem pelos sentidos, e que não os conhecemos devido ao fato de os vermos, ou devido ao fato de os tocarmos, mas somente devido ao fato de os concebermos pelo pensamento, sei evidentemente que nada há que me seja mais fácil de conhecer do que meu espírito” (P52)

Terceira Meditação, De Deus; que ele existe

De acordo com o “Resumo das seis meditações que se seguem”, na terceira meditação seu objetivo é provar a existência de Deus, e que é impossível que “a ideia de Deus, que está em nós, não tenha Deus mesmo por sua causa”.

Descartes inicia a sua terceira meditação com o mesmo ponto de partida de que ele é apenas uma coisa que pensa e isso é tudo o que presume como verdadeiro até aquele momento. Estabelece (novamente) como “regra geral” para responder a “o que é requisito para me tornar certo de alguma coisa”, que “todas as coisas que concebemos muito clara e distintamente são todas verdadeiras”.

Após refletir sobre as origens de suas ideias, Descartes chega à seguinte conclusão:

“não havia nenhum conhecimento que eu possuísse que fosse a causa da verdade de meu juízo” (P55)

Os gêneros do pensamento

Descartes nota que a ideia de um “poder soberano de um Deus” sempre que lhe ocorre, lhe é crível, portanto, acredita que precisa se dedicar a examinar “se há um Deus”, entretanto, antes desse exame, será necessário dividir o seu pensamento em alguns gêneros para conseguir seguir o seu método e passar “gradativamente das noções que descobrirei como primeiras em meu espírito para aquelas que poderei aí encontrar depois”.

  • ideia: a imagem das coisas
    • as ideias, quando consideradas em si, não podem ser falsas
  • vontades ou afecções: sujeito da ação do espírito (eu quero, eu temo, eu afirmo, eu nego)
    • de acordo com a nota do tradutor, o termo afecções provém da filosofia grega tradicional (pathe e pathemata)
    • também não se pode encontrar falsidade nas vontades ou afecções
  • juízos: também como sujeito da ação do espírito
    • A ideia é a representação (a imagem)
    • O juízo é o ato de afirmar ou negar que essa ideia corresponde a algo real fora de mim

Descartes nota que as suas ideias podem estar dentro de si (de sua própria natureza), exteriores a si, ou produzidas por si (invenções ou ficções do espírito), entretanto, afirma que pode se enganar e confundir entre elas, pois não descobriu claramente as suas origens.

Questiona-se quanto às ideias que estão fora de si: busca identificar quais são as razões que o forçam a crer serem essas ideias semelhantes aos objetos que estão fora de si.

  • a primeira razão é que parece lhe ter sido “revelado pela natureza”
    • natureza de acordo com Descartes: “certa inclinação que me leva a crer nessa coisa e não uma luz natural que me faz conhecer se ela é verdadeira”
    • não confia nessas razões (certezas vindas do sentido) utilizando como critério as vezes em que precisou eleger entre “vícios” e “virtudes” e como consequência essas inclinações já o levaram ao vício no passado
  • a segunda razão é a experiência de que essas ideias “não dependem da sua vontade”
    • nota que essas ideias podem se formar sem que os objetos externos que parecem representar sejam sua causa necessária, portanto, não é uma consequência necessária que toda ideia de um objeto seja similar a esse mesmo objeto
    • chega à conclusão de que “aquela ideia que provém imediatamente de sua aparência é a que lhe é mais dessemelhante”

Descartes nota que as coisas “fora de si” não foram concebidas através de um juízo “certo e premeditado”, mas sim por um impulso “cego e temerário”, entretanto, através de seus sentidos, ou por outro meio, notava que essas coisas enviam a ele suas ideias ou imagens e aí imprimiam suas semelhanças.

A relação entre causa e efeito

Descartes nota que as ideias

  • enquanto maneira de pensar parecem ser semelhantes, mas enquanto imagens representantes de algo, parecem ser muito diferentes entre si. A partir disso surge o seu conceito de substância e realidade objetiva

Por Substância

“são, indubitavelmente, algo mais e encerram em si (por assim dizer) mais realidade objetiva” (P61)

Por Realidade Objetiva

“participam por representação em mais estágios de ser ou de perfeição do que as que me representam apenas modos ou acidentes” (P61)

Em termos mais explícitos: realidade objetiva é o grau de ser que uma ideia possui enquanto representação (seu conteúdo representativo), e realidade formal é o grau de ser que algo possui enquanto coisa existente.

Nesse sentido, Descartes acredita que a ideia de Deus possui certamente mais realidade objetiva do que as substâncias finitas

“um Deus soberano, eterno, infinito, imutável, onisciente, onipotente e Criador universal de todas as coisas que lhe são externas, essa ideia, digo, possui certamente em si mais realidade objetiva do que aquelas mediante as quais me são representadas as substâncias finitas.”

Portanto, Descartes finalmente estabelece a relação entre a causa e o seu efeito

”… deve haver aí pelo menos tanta realidade na causa eficiente e total quanto em seu efeito, pois de onde mais pode o efeito retirar sua realidade senão de sua causa? E como essa causa poderia transmitir a ele realidade se não a possuísse em si mesma?”

O Princípio de Causalidade

Descartes nota que, através dessa relação de causa e efeito:

  • o nada não poderia produzir coisa alguma
  • o que é “mais perfeito” (encerra em si mais realidade) não pode depender e decorrer do “menos perfeito”

Isso se aplica não somente aos efeitos que possuem em si a realidade da causa, ou seja, que possuem a “realidade formal”, mas também quanto às ideias originadas de outras ideias que possuem apenas a sua “realidade objetiva”.

Nesse sentido, para compreender, podemos retomar o exemplo da pedra, onde Descartes afirma que

“para a pedra começar a ser, ela precisa ter sido originada de uma coisa que tem em si formalmente ou eminentemente, tudo o que participa da composição da pedra, isto é, que contém em si as mesmas coisas ou outras mais excelentes do que as que estão presentes na pedra” (P62)

(P.S: Pensei existir O Elo Cartesiano na Programação Orientada a Objetos)

  • Formalmente: A causa tem a mesma perfeição que o efeito.
  • Eminentemente: A causa tem uma perfeição superior que “cobre” o custo do efeito.

As ideias dessas coisas (como a pedra, ou o calor), na concepção de Descartes só podem ter sido “instaladas” por algo externo a si que contenha ao menos tanta realidade quanto concebe nessas coisas, e isso não deve levar a concluir que a causa não é real.

“ainda que tal causa não transmita à minha ideia nada de sua realidade atual ou formal, não se deve em função disso imaginar que essa causa deva ser menos real” (P62)

Portanto, as ideias enquanto um modo de pensar (sendo uma obra do espírito):

“sua natureza é tal que não exige de si nenhuma outra realidade formal além da que recebe e toma emprestada do pensamento ou do espírito” (P62)

“para que uma ideia contenha tal realidade objetiva mais do que outra, deve indubitavelmente tê-la de alguma causa em que se encontra pelo menos tanta realidade formal quanto essa ideia contém de realidade objetiva” (P62)

Porque uma ideia não poderia ser originada do nada e a primeira ideia

Se algo se encontra na ideia e não se encontra na causa, consequentemente essa ideia foi originada do nada, entretanto, essa ideia não poderia “ser nada” ou ter a sua origem no nada, pois essa ideia está presente no entendimento objetivamente ou por representação mediante a sua ideia.

Descartes conclui que é necessário a realidade estar formalmente nas causas de suas ideias (ainda que essa realidade nessas ideias seja objetiva), mas não basta essa realidade encontrar-se objetivamente nas suas causas, pois a maneira de ser objetivamente pertence às ideias (conforme sua própria natureza) e o modo de ser formalmente pertence às causas. Uma ideia pode dar origem a outra, mas não ad infinitum, sendo necessário chegar a uma primeira ideia

“cuja causa seja como um padrão ou um original no qual toda a realidade ou perfeição esteja encerrada formalmente e, efetivamente, que se encontre apenas objetivamente ou por representação nessas ideias” (P63)

Descartes então conclui disso que as ideias podem perder a perfeição de suas causas, mas nunca conter algo de mais elevado ou de mais perfeito.

A Gênese das Ideias de Coisas Corpóreas

Descartes então conclui que talvez não esteja só no mundo

”… se a realidade objetiva de qualquer uma de minhas ideias é tal a ponto de eu saber claramente que não está em mim, nem formal nem eminentemente, e que, consequentemente, não posso eu mesmo ser dela a causa, resulta necessariamente que não estou só no mundo, mas que há ainda alguma outra coisa existente e que é a causa dessa ideia” (P63,64)

Nota que entre as ideias que pode conceber, se as analisar tão profundamente quanto analisou a cera, poderá conceber as ideias das coisas corpóreas clara e distintamente, entretanto, são tão obscuras e confusas que ele ignora se são verdadeiras ou falsas, podendo conter falsidade material.

Para Descartes, apenas as ideias podem apresentar “falsidade material”, pois elas podem representar “aquilo que não é nada como se fosse alguma coisa”. Enquanto nos juízos é possível encontrar “falsidade formal”, que é o erro de afirmar que a ideia corresponde à realidade externa.

Sendo as ideias imagens, não é possível existir uma ideia que não represente alguma coisa; essa representação pode ser verdadeira ou falsa

  • se são falsas (ou seja, ideias de coisas que “não são”), elas estão somente nele (ou seja, procedem do nada) porque lhe falta algo à sua natureza
  • se são verdadeiras mostrando pouca realidade a ponto de não conseguir discernir nitidamente a coisa representada do “não ser”, então Descartes pode lhes atribuir a autoria

Ainda que seja apenas uma coisa que pensa, e não extensa, Descartes assume que é uma substância, assim como a pedra que é uma coisa extensa e que não pensa. Dessa forma, ao refletir que “é” ao mesmo tempo que se recorda de “já ter sido”, adquire a ideia de “duração”, ao mesmo tempo que adquire a ideia de “número”, pois concebe diversos pensamentos cujo número conhece.

As demais qualidades das quais são compostas as ideias das coisas corpóreas (extensão, figura, situação e deslocamento) não estão formalmente nele (pois ele é apenas “algo que pensa”). Entretanto, essas qualidades são apenas modos da substância (como a forma sob as quais a substância corpórea nos aparece). Por ser ele mesmo uma substância, tais ideias estão contidas nele eminentemente.

A Prova da Existência de Deus pela Ideia de Infinito

Descartes possui a ideia de Deus enquanto uma substância

“Pelo nome Deus entendo uma substância infinita, eterna, imutável, independente, onisciente, onipotente e pela qual eu mesmo, e todas as outras coisas que são (se é verdade que há coisas que existem) foram criadas e produzidas (P67)

Descartes reflete que essas superioridades divinas são tão importantes e eminentes que não podem ter sido tiradas de si mesmo. Ele, enquanto um ser finito, não pode ter ideia de uma substância infinita, e portanto, essa ideia só pode ter sido colocada nele por alguma substância verdadeiramente infinita.

Ao rejeitar que a ideia de infinito seja apenas a negação do finito, Descartes conclui que a noção de Deus é anterior à de si mesmo: existe em si primeiro uma noção de infinito e depois de finito, portanto, primeiramente em si existe uma noção de Deus e depois de si mesmo. Noção essa que lhe é tão clara e distinta, e contém mais realidade objetiva que qualquer outra ideia, que ela não pode ser falsa (e nem existir nenhuma outra mais verdadeira e com menos suspeita de erro e falsidade). Além disso, Descartes afirma a impossibilidade da não existência de Deus através do argumento de que embora possa simular que Deus não existe, ele não pode simular que essa ideia não lhe represente nada de real (diferentemente do frio, que é a ausência do calor e o calor, que é a ausência do frio, e portanto, não lhe representam nada de real). Descartes afirma que tudo que seu espírito concebe como real e verdadeiro está encerrado e contido por completo nessa ideia.

Ainda que Descartes não compreenda o infinito e uma infinidade de coisas em Deus, não pode atribuir isso à falsidade de Deus, pois essa limitação na compreensão se dá pela sua natureza finita e limitada. Portanto, Descartes estabelece algo como uma regra, onde basta que ele conceba bem e que julgue se todas as coisas que concebe estão formal ou eminentemente em Deus, a fim de que essa ideia (de Deus) lhe seja a mais clara, verdadeira e mais distinta de todas as demais ideias que estão em seu espírito.

Descartes questiona-se se ele mesmo não poderia ser algo mais do que imagina ser, e reflete que ainda que existisse a possibilidade de ele ter as perfeições que atribui a Deus pelo menos em potência, conclui que não é possível, pois de acordo com a sua ideia de Deus, nada existe em potência, mas tudo em ato (esses conceitos de ato e potência são os conceitos aristotélicos). Para Descartes, Deus é infinito em ato

“o ser objetivo de uma ideia não pode ser produzido por um ser existente apenas em potência, o qual, falando propriamente, não é nada, mas somente por um ser formal ou em ato” (P70)

A existência de Deus a partir da própria existência e conservação

Para tentar se recordar da razão pela qual a ideia de um ser mais perfeito que ele deve necessariamente ter sido colocada nele por um ser que efetivamente fosse mais perfeito. Nesse caminho, pergunta-se se ele mesmo poderia “ser” se não houvesse Deus, o que o leva a questionar a quem deve a sua existência.

Se fosse independente e ele mesmo fosse o autor de seu ser, então ele seria Deus, pois em si nada faltaria.

Não deve imaginar que as coisas que tem são mais difíceis de se adquirir do que as que não tem, sendo assim, pensa que teria sido mais difícil uma substância que pensa ter saído do nada do que lhe seria adquirir os conhecimentos das diversas coisas que ignora.

Se fosse autor de si mesmo, não seria privado da aquisição de coisas mais fáceis de serem adquiridas do que as que já tem, não seria privado das coisas que concebe em Deus, porque nenhuma aquisição lhe parece mais difícil, e pensa que se houvesse alguma mais difícil, seu poder chegaria ao fim por não ter como ir além.

Descartes pensa ser necessário que Deus seja o autor de sua existência pois, raciocinando que ele talvez sempre tenha sido como é agora, e que todo o tempo de sua vida pode ser dividido em uma infinidade de partes independentes em absoluto das demais, o fato de ter sido não resulta que ainda é, ou que será; é necessário uma causa que o produza e crie novamente, ou seja, que o conserve. Para Descartes, conservação e criação só diferem no modo de pensar.

”… uma substância, para ser conservada em todos os momentos de sua duração, necessita do mesmo poder e da mesma ação que seriam necessários para produzi-la e criá-la novamente, se ainda não fosse” (P72)

Descartes questiona se ele possui alguma virtude capaz de fazer com que ele que é, no futuro ainda seja. Sendo apenas uma coisa que pensa, se tal poder residisse em si, ele poderia pensar e ter conhecimento disso; como não tem, pode afirmar que depende de algum ser distinto.

Descartes levanta a possibilidade de que o ser distinto de que depende não seja Deus, mas sim algo menos perfeito. Entretanto, chega à conclusão de que isso não é possível, pois como é necessário “haver tanta realidade na causa quanto no efeito”, uma coisa que pensa e que tem em si alguma ideia de Deus só pode ter sido gerada por algo que pensa e que possui essa mesma ideia de Deus.

Se essa causa tivesse originado a si mesma, seria Deus. Se não, em uma regressão, chegaríamos à ideia de Deus. A regressão ao infinito aqui não é possível porque essa causa deve ser o que conserva Descartes no ser a cada instante: como a conservação exige uma causa atual (não passada), é necessária uma causa primeira atuante agora.

Ao questionar se a sua origem pode ter sido múltiplas causas, pensa que não, pois a unidade, a simplicidade ou inseparabilidade de todas as coisas que estão em Deus é uma das perfeições que concebe nele existir. Se ele tivesse recebido a ideia de reunião e unidade através de outra causa, esta teria que ter sido fonte das ideias de todas as outras perfeições; não seria possível concebê-las como unidas e inseparáveis sem saber quais são essas outras perfeições.

Afirma que seus pais não podem ter sido seus criadores, pois tudo o que fizeram foi “estabelecer algumas disposições na matéria” e não podem ser os seus conservadores.

Portanto, Descartes conclui que do simples fato de ele existir e da ideia de um ser soberanamente perfeito (Deus) estar em si, prova a existência de Deus.

Descartes chega à conclusão de que, assim como a ideia de si mesmo, a ideia de Deus é nascida e produzida com ele no momento em que foi criado, pois:

  • não as recebeu do sentido
  • não foi produzida por seu espírito, uma vez que não pode subtrair nem adicionar nada a ela

A ideia de Deus para Descartes é como a marca do criador em sua obra, e não necessariamente essa marca é algo de diferente da obra. Parece crível que por ter sido criado por Deus, Deus o criou à sua imagem e semelhança, e concebe isso pela mesma faculdade pela qual conhece a si mesmo, pois quando olha para si, pode se notar incompleto e reconhece que aquele ser do qual depende possui todas as coisas que lhe faltam, e essas coisas que lhe faltam são ideias em potência, enquanto em seu criador estão em ato (portanto, Deus).

Além disso, Deus não pode ser enganador, pois ainda que nosso espírito possa ter uma ideia de todas as perfeições divinas sem as compreender, Deus compreende todas essas perfeições e portanto não pode falhar; uma vez que o engano depende da falha, Deus não pode ser enganador.

Síntese

Para chegar à existência de Deus, Descartes inicia fazendo um detalhado exame de suas ideias, dividindo os gêneros do pensamento e estabelecendo a relação entre causa e efeito. A partir de então, investiga a gênese das ideias e, através da ideia de infinito, prova a existência de Deus. Além da ideia de infinito, acredita na existência de Deus a partir de sua própria existência e a necessidade de sua conservação, concluindo, assim, que Deus existe e, sendo perfeito, não pode ser enganador, o que garante a possibilidade do conhecimento verdadeiro.

Quarta Meditação, Do verdadeiro e do falso

De acordo com o “Resumo das seis meditações que se seguem”, na quarta meditação é provado que as coisas que concebemos com muita clareza e distinção são todas verdadeiras, além disso, é explicado em que consiste a razão do erro ou falsidade. O objetivo não é falar do pecado (que para Descartes é o erro que se comete na busca do bem e do mal), assim como nada que pertence à fé ou à conduta na vida, “somente as que dizem respeito às verdades especulativas e conhecidas exclusivamente mediante a ajuda da luz natural”.

Descartes reflete que muito se conhece de Deus, enquanto pouco se conhece das coisas do universo, e que se conhece mais do espírito humano do que das coisas, portanto, encontra nisso uma senda que conduz da contemplação de Deus até o conhecimento das coisas.

Descartes reflete sobre o seu poder de julgar, que assim como as demais coisas, foi recebido de Deus. Deus que é inerentemente bom (e não engana), portanto não iria dar poderes que possam conduzir ao erro. Entretanto, reflete que se está próximo de Deus, que é a perfeição (uma ideia positiva), está também de alguma forma próximo ao nada (uma ideia negativa), e portanto, distante de toda a perfeição.

A partir dessa percepção, Descartes afirma que o erro não é uma ausência de algo que deveria ter sido recebido de Deus; o erro é uma privação, e não mera negação, pois consiste na falta de um conhecimento que deveria estar presente quando a vontade emite juízo, uma vez que o poder de discernir o verdadeiro do falso não é infinito

”… o erro não é uma negação pura, isto é, não é a simples privação ou falta de alguma perfeição que não me é devida, mas antes é uma privação de algum conhecimento que parece dever eu possuir.” (P80)

Uma vez que Deus é bom e não lhe daria faculdades que pudessem enganá-lo, Descartes questiona se lhe é mais vantajoso errar do que não errar.

Sobre a relação do indivíduo como parte da universalidade de todos os seres

Descartes afirma que há uma infinidade de coisas em seu poder cujas causas vão além da compreensão do seu espírito; essas causas têm relação com os fins de Deus e portanto não têm uso algum nas coisas físicas ou naturais.

Descartes então conclui que a perfeição de uma criatura não deve ser avaliada na criatura de maneira isolada, mas sim considerando essa criatura como parte do todo, pois talvez a coisa que estivesse imperfeita isoladamente não estaria sendo considerada em conjunto com o todo. Portanto afirma, com relação às criações de Deus

“não poderia negar que ele tenha produzido muitas outras coisas, ou ao menos que possa produzi-las, de modo que eu exista e esteja colocado no mundo como constituindo parte da universalidade de todos os seres” (P81)

As causas do erro

Descartes, ao considerar quais são os seus erros, descobre que dependem do concurso de duas causas:

  • faculdade cognitiva que está nele (connaître)
  • capacidade de escolha (livre arbítrio, elire): entendimento associado a vontade

Sobre o entendimento: por si só, ele apenas concebe, apresenta ideias — não afirma nem nega. Quem afirma ou nega é a vontade ao emitir juízo sobre o que o entendimento apresenta. Quando Descartes diz que “só concebe coisas que pode afirmar ou negar”, está dizendo que o entendimento fornece o material sobre o qual a vontade pode agir, mas o ato judicativo pertence à vontade. Portanto:

  • nele não se encontra nenhum erro, contando que se entenda a significação da palavra erro
  • ainda que haja coisas que o entendimento não tem ideia, isso não significa privação, apenas que não as possui
  • não pode exigir mais faculdade cognitiva de Deus, pois ele não pode introduzir em cada uma de suas obras todas as perfeições

Sobre a vontade

  • não pode se queixar que Deus lhe deu pouca vontade, pois ele a experimenta com indefinição e amplitude sem limites
  • para Descartes, essa é a principal mostra da imagem e semelhança de Deus

Entretanto, ainda que a vontade de Deus pareça maior que a sua, quando considera a vontade de maneira “formal e precisamente em si mesma” não parece maior, pois a vontade consiste em nossa

“capacidade de fazer algo ou não o fazer (isto é, afirmar ou negar, perseguir ou fugir)” (P83)

Descartes nota que essa capacidade de fazer algo ou não nos faz agir de tal modo que “nenhuma força exterior nos constrange a isso”.

A liberdade enquanto oposição à indiferença

Ao refletir sobre o que é ser livre, percebe que ser livre não é ser indiferente diante de dois contrários, mas sim que quanto mais se inclina para um lado, mais livre é, pois melhor poderá identificar o caminho correto (e portanto o bem e a verdade). A graça divina somada ao conhecimento natural lhe aumenta a liberdade, enquanto a indiferença é o grau mais baixo de liberdade, pois indica uma falha no conhecimento. A indiferença só seria compatível com a liberdade plena se houvesse conhecimento total de ambos os lados; a liberdade máxima se manifesta quando o entendimento apresenta algo tão claro que a vontade adere espontaneamente.

Logo, nem a sua capacidade de entender nem a sua capacidade de escolher são em si a causa do erro. A causa do erro são as escolhas erradas feitas perante um descompasso onde “a vontade é muito mais ampla e muito mais extensa do que o entendimento”.

Sobre o mau uso do livre arbítrio e a privação constituinte da forma do erro

Descartes, ao refletir sobre o seu método, percebe que o seu critério de verdade foi estabelecido mediante uma grande clareza do entendimento, que gerou uma grande inclinação na vontade, sendo assim, quanto menor a indiferença, maior a liberdade. Ao emitir o juízo sobre algo que desconhece e que é obscuro (por exemplo, a natureza corpórea), faz um mau uso do livre arbítrio

“o conhecimento do entendimento deve sempre se antepor à determinação da vontade” (P86)

Ao ignorar esse ensinamento, o resultado será a privação do conhecimento, e portanto é no mau uso do livre arbítrio que está a privação constituinte da forma do erro.

Para Descartes, Deus não lhe deu a virtude de não errar, entretanto lhe deu a resolução de jamais emitir seu juízo a respeito de coisas cuja verdade não lhe são claramente conhecidas. Ainda que possua a fraqueza em sua natureza de não poder fixar continuamente seu espírito em um mesmo pensamento, percebe que através da meditação pode adquirir o hábito de não errar.

Distinção Teológica

  • Negação: A falta de algo que não nos é devido (ex: não somos oniscientes). Deus não é culpado por nos criar finitos.
  • Privação: A falta de algo que deveria estar presente no ato (o erro). Isso ocorre por nossa culpa, não por defeito na natureza dada por Deus.

Deus enquanto autor das verdades e não causa dos erros

Uma vez descoberto que a causa das falsidades e dos erros é a vontade fora dos limites do conhecimento:

“toda concepção clara e distinta é indubitavelmente algo de real e positivo” (P89)

Uma vez que dessa forma não pode se originar do nada, contendo Deus como seu autor, e uma vez que Deus não pode ser a causa de nenhum erro, tal concepção ou juízo só pode ser verdadeiro.

Como atingir o conhecimento?

Descartes afirma que aprendeu que para atingir o conhecimento da verdade deverá deter suficientemente sua atenção em todas as coisas que concebe perfeitamente, separando-as das coisas que compreende com confusão e obscuridade.

Quinta Meditação, Da essência das coisas materiais e, mais uma vez, de Deus, que existe

De acordo com o “Resumo das seis meditações que se seguem”, na quinta meditação:

  • explicada a natureza corpórea em geral
  • provada a existência de Deus sob novas razões (embora com algumas dificuldades que serão esclarecidas)
  • provado que as demonstrações geométricas dependem do conhecimento de um Deus

Sobre a natureza corpórea em geral

Antes de examinar a existência externa das coisas corpóreas, Descartes busca distinguir entre essas coisas as claras e as obscuras. Portanto, começa a examinar aquilo que os filósofos chamam de quantidade contínua, que são: extensão, largura, profundidade, grandezas, figuras, situações, movimentos, duração.

Nota que essas coisas pode conceber claramente ainda que não as tenha experimentado pelo sentido, entretanto, podendo demonstrá-las verdadeiras, tais quais as verdades matemáticas (usando como exemplo o triângulo), a partir disso conclui que essas coisas já lhe estavam no espírito e possuem uma natureza verdadeira e imutável. Ainda sobre os sentidos, Descartes afirma que mesmo quando se encontrava em posse deles, ainda achava que as verdades matemáticas (nomeadamente aritmética e geometria) eram as verdades mais constantes.

Porque não é possível conceber um Deus que não existe

Descartes conhece clara e distintamente que uma existência em ato e eterna pertence à natureza de Deus assim como concebe clara e distintamente as verdades das matemáticas (aritmética e geometria). Entretanto, nota que não pode dissociar a existência da essência de Deus. Ao refletir, observa que embora possa conceber uma montanha sem vale, isso não significa necessariamente a sua existência no mundo (embora a sua imagem/representação exista). Descartes nota que as ideias de vale e montanha não podem ser dissociadas, assim como a ideia de Deus e existência. A analogia montanha/vale serve para mostrar que certas coisas são inseparáveis conceitualmente, mas disso não se segue existência real. No caso de Deus, porém, a existência pertence à essência — diferentemente da montanha, cuja essência não inclui existência. É essa assimetria que faz a prova funcionar. Portanto, não é o seu pensamento que impõe necessidade às coisas, mas sim a necessidade da própria coisa que determina o modo de concepção do pensamento. Portanto:

“Deus, à essência do qual a existência necessariamente pertence” (P97)

A partir daí pode conceber clara e distintamente, tal qual as verdades matemáticas, que

”… há um Deus, isto é, um ser soberano e perfeito em cuja ideia unicamente a existência necessária ou eterna está compreendida…” (P98)

A verdadeira ciência depende do conhecimento do verdadeiro Deus

A partir da sua verdade sobre a existência de Deus, chega à conclusão de que “sem esse conhecimento é impossível poder, algum dia, saber perfeitamente algo”, ou seja, que “a certeza de todas as outras coisas dela depende”.

Uma vez que é verdade que pode conceber como verdade as coisas que se apresentam clara e distintamente para si, é também verdade que o espírito vacila (não está “preso a uma mesma coisa”), e portanto, outras razões poderiam fazê-lo mudar de opinião. Para Descartes, essa mudança errônea de opinião seria a consequência de ignorar a existência de Deus; ignorar Deus leva à dúvida sobre a verdade

“A consequência seria não ter eu jamais uma ciência verdadeira e certa de qualquer coisa, mas apenas opiniões vagas e instáveis” (P99)

Uma vez que Deus não é um enganador, pode confiar que tudo que concebe clara e distintamente não pode deixar de ser verdadeiro, ou seja, ninguém pode lhe apresentar “nenhuma razão contrária” que lhe gere a dúvida.

Descartes afirma que antes teve muitas coisas como verdadeiras por razões menos fortes do que ele as imaginara e não clara e distintamente, pois essa regra mediante a qual a verdade pode ser assegurada não lhe era conhecida. E ainda que esteja adormecido, tudo que se apresenta ao espírito com evidência é absolutamente verdadeiro. Portanto, pode concluir que

“a certeza e a verdade de toda ciência dependem exclusivamente do conhecimento do verdadeiro Deus, resultando que antes que eu o conhecesse não podia conhecer perfeitamente nenhuma outra coisa” (P101)

Sexta Meditação, Da existência das coisas materiais e da real distinção entre alma e corpo humano

De acordo com o “Resumo das seis meditações que se seguem”, na sexta meditação, seus objetivos são:

  • distinguir a ação do entendimento daquela da imaginação
  • mostrar que a alma humana é realmente distinta do corpo, e contudo, que está a ele tão estreitamente ligada e unida que com ele compõe como se fosse uma mesma coisa
  • expor os erros provenientes do sentido e os meios de evitá-los
  • expor as razões das quais se pode concluir a existência das coisas materiais (e ainda não são tão sólidas nem evidentes quanto as coisas que nos conduzem ao conhecimento de Deus e de nossa alma, essas são as coisas mais certas e evidentes que podem tocar ao conhecimento do espírito humano)

A diferença entre imaginação e concepção e a necessidade da existência de um corpo

Descartes inicia a sua reflexão observando que a sua imaginação pode persuadi-lo da existência de algumas coisas, e por imaginação, considera

“certa aplicação da faculdade cognitiva ao corpo que lhe é intimamente presente, e, portanto, que existe” (P104)

Portanto, Descartes reflete sobre a diferença entre imaginação e concepção (ou intelecção pura) e nota que para imaginar necessita de uma particular contenção do espírito, da qual para conceber não necessita, e justamente essa necessidade de contenção do espírito exibe a diferença entre a imaginação e a intelecção (ou concepção pura). Além disso, percebe que a faculdade de imaginar não é necessária à sua natureza ou à essência do seu espírito, portanto, conclui que a imaginação depende de algo diferente do seu espírito. Nesse sentido, percebe que se houver algum corpo ao qual seu espírito está ligado e unido, esse corpo pode ser um meio de ele imaginar as coisas corpóreas, uma vez que quando concebe, seu espírito volta-se a si mesmo, mas ao imaginar, ele se volta para o corpo para observar alguma consonância com a ideia que formou de si mesmo ou que recebeu pelos sentidos. Portanto, a concepção de imaginação de Descartes pode ser verdadeira, uma vez provada a existência de algum corpo.

Reflexões sobre o que é perceber sensorialmente e as possibilidades de erros e acertos

Descartes inicia uma reflexão sobre o que é perceber sensorialmente buscando, a partir desse entendimento, extrair a existência corpórea. Em um primeiro momento busca entender quais coisas recebidas via sentido são verdadeiras e quais os fundamentos de sua crença. Descartes nota que percebeu sensorialmente seus membros, as sensações de conforto e desconforto, paixões, e através de seus membros podia ter discernimento sobre as qualidades do tato e ainda experimenta que as coisas se apresentam aos seus sentidos independentemente de sua vontade. Como essas ideias recebidas via sentido eram muito sólidas, mais do que qualquer outra proveniente do espírito, acreditava que eram originadas de outra coisa que não o espírito, e ainda, que não tinha nenhuma ideia em seu espírito que não houvesse anteriormente passado por seus sentidos.

Descartes então reflete que nunca pode se separar de seu corpo, e através dele experimentava diversos sentimentos em suas partes e não nas dos outros corpos que dele estavam separados. Reflete que parece que as coisas que dizem respeito aos objetos dos seus sentidos se formavam nele muito rapidamente, tal qual que parecia que ele as aprendia da natureza.

Após refletir sobre todas as razões que poderiam ser o fundamento de suas crenças na veracidade das coisas recebidas do sentido, Descartes relembra que muitas vezes os sentidos já lhe enganaram, tanto externamente (ao observar algo), quanto internamente (ao erroneamente identificar a necessidade de algo que na realidade lhe prejudicaria). Ainda, reflete que enquanto dormindo parece perceber coisas sensorialmente, ainda que não seja possível essa percepção durante o sono, e quando não conhecia a sua origem e seu criador, não poderia ter certeza de que a natureza não poderia enganá-lo.

Agora que conhece sua origem e seu criador, Descartes reflete que não deve admitir indiscriminadamente todas as coisas provenientes do sentido, mas tampouco colocá-las em dúvida universalmente.

A alma é distinta do corpo e porque as coisas corpóreas existem

Descartes entende que as coisas podem ser estabelecidas separadamente uma da outra (ao menos pela onipotência de Deus). Admite que a sua essência total ou natureza é pensar e não ser extensa, ao mesmo tempo que concebe a ideia do corpo como uma coisa extensa e que não pensa, portanto conclui a respeito de sua alma

”… esse eu, minha alma, é completa e verdadeiramente distinta do meu corpo, e pode ser ou existir sem ele” (P112)

Ao refletir sobre as suas faculdades, nota que as faculdades do pensar são nele encontradas como particulares e distintas, nomeadamente as faculdades da imaginação e da percepção sensorial. Essas faculdades dependem de uma substância que pensa (tal como ele), entretanto, encerram em si alguma espécie de intelecção — isto é, embora voltadas ao corpo, contêm um componente intelectual (pois são modos de pensar), o que as vincula ao sujeito pensante.

Reconhece em si outras faculdades como mudar de lugar, pôr-se em muitas posturas e outras semelhantes que não podem ser concebidas sem vínculo a uma outra substância corpórea ou extensa e não a uma inteligente, pois encerram em si algum tipo de extensão.

A outra é a faculdade passiva de perceber sensorialmente, ou seja, receber e conhecer as ideias das coisas sensíveis, entretanto, essa faculdade é inútil sem alguma outra que seja capaz de produzir as ideias dessas coisas.

Uma vez que essa faculdade não pressupõe o seu pensamento, a sua contribuição e nem mesmo a sua vontade, é necessário que exista alguma outra substância que não seja ele mesmo, e portanto essa substância só pode ser um corpo, ou Deus.

Uma vez que Deus não é enganador, não enviaria essas ideias imediatamente por si mesmo nem por intermédio de alguma criatura que as contenha apenas eminentemente. Isso porque, se Deus produzisse diretamente as ideias sensíveis em nós (sem que corpos existissem), estaria nos enganando, pois temos uma inclinação natural fortíssima a crer que essas ideias vêm de corpos. Como Deus não engana, a causa deve ser efetivamente corpórea. Portanto, disso resulta que a substância em questão só pode ser um corpo, logo conclui:

“há coisas corpóreas que existem” (P114)

O conhecimento enquanto uma exclusividade do Espírito

Descartes nota que as coisas corpóreas podem não ser como as percebidas pelo sentido, que são obscuras e confusas quando comparadas às coisas compreendidas na geometria especulativa. Ainda que lhe existam coisas duvidosas e incertas, Deus não sendo enganador, lhe deu os meios de conhecê-las com certeza.

Para Descartes não há como duvidar de que tudo o que a natureza lhe revela contém alguma verdade, e por natureza:

  • considerada em geral: próprio Deus, ou então a ordem e disposição que Deus instalou nas coisas
  • considerada em si mesmo: encadeamento ou agregado de todas as coisas a ele concedidas por Deus

Descartes não duvida de suas sensações de fome, sede, dor, e portanto, que tem um corpo que sofre mediante essas sensações, e ainda que não está alojado em seu corpo, mas sim “unido muito estreitamente”, “confundido e mesclado”, como “se com ele compusesse um único todo”. Entende que essas “sensações confusas” são

”… maneiras confusas de pensar que provêm e dependem da união e como que da mescla do espírito ao corpo” (P116)

A natureza lhe revela que existem outros corpos em torno do seu, dos quais percebe que há uma variedade de percepções sensoriais que lhes são agradáveis ou não, e por isso percebe que o seu corpo

“meu corpo (ou melhor, eu próprio na totalidade enquanto composto de corpo e de alma) pode acolher diversos confortos ou desconfortos dos outros corpos que o cercam” (P116)

Após essa revelação da natureza, nota que parece que há muitas outras coisas que a natureza lhe concedeu, entretanto que não foram provenientes dela. Isso o leva a definir rigorosamente o que entende quando diz que a natureza lhe revela algo, e usando uma acepção mais restrita, nota que ainda que muitas coisas lhe tenham sido reveladas pela luz natural sem o corpo, chega à conclusão de que existem coisas que pertencem exclusivamente ao corpo (como peso e etc). A natureza não lhe ensina que deva concluir algo no tocante às coisas externas sem que o espírito as tenha examinado cuidadosamente, portanto, conclui que parece que conhecer a verdade das coisas é exclusivo do espírito e não do composto espírito/corpo.

A natureza que desconhece todas as coisas e o erro natural

Descartes percebe que pode “perverter e confundir a ordem da natureza” mediante a confusão proveniente das sensações ou percepções sensoriais e portanto conceber coisas obscuras e confusas, o levando a questionar o que deve ser acolhido da natureza e o que deve ser evitado, uma vez que já foi enganado por ela. Entretanto, às vezes não pode julgar que foi enganado pela natureza, mas sim que havia algo que não lhe era conhecido, e portanto, conclui que a natureza do ser humano, sendo finita, não conhece plena e universalmente todas as coisas — naturalmente, pois se trata de um humano de natureza finita e portanto, perfeição finita.

Ao refletir sobre as coisas às quais somos diretamente conduzidos pela natureza, nota que os enfermos (por ex: hidrópicos) podem naturalmente ser conduzidos a uma decisão naturalmente errada de tomar água mediante a uma secura na garganta, uma vez que fora das condições de enfermidades tal condição levaria naturalmente o corpo a beber água. Se em alguma condição de enfermidade a ação de beber água que lhe é natural poderia lhe causar um mal, portanto, pensa que ao não beber água mediante a secura da garganta, o corpo não acata a ordem da natureza. Entretanto, por enxergar o corpo enquanto uma máquina, pensa que isso é uma denominação que depende de seu pensamento, mas mesmo que o corrompimento da natureza seja uma denominação, ao pensar no corpo hidrópico, nota que o fato do corpo sentir sede quando lhe faz mal é um erro natural.

A bondade de Deus não impede que a natureza humana seja falha e enganadora

Descartes parte para examinar como a bondade de Deus não impede que a natureza humana seja falha e enganadora, iniciando o seu raciocínio notando que existe uma grande diferença entre o corpo e o espírito, uma vez que um é divisível e o outro é indivisível, onde o exame detalhado lhe revela que

“o espírito ou alma do ser humano é inteiramente diferente do corpo” (P122)

O espírito recebe imediatamente impressões apenas do cérebro, ou de suas partes menores, onde é exercida a faculdade chamada de senso comum, a qual sempre que disposta da mesma maneira leva o espírito a experimentar a mesma coisa, enquanto o corpo pode ser disposto de N maneiras.

Refletindo sobre a natureza do corpo e os movimentos de suas partes, em relação à transmissão da dor de seus membros até seu cérebro, pode concluir que

“esse movimento faz o espírito experimentar, entre todas as sensações que é capaz de causar, aquela que é a mais própria e a mais ordinariamente útil à conservação do corpo humano quando este goza de plena saúde” (P124)

Ou seja, a natureza humana foi concebida de maneira que esse movimento no cérebro mediante alguma necessidade de conservação do corpo leve o espírito a experimentar a sensação que melhor contribui para a conservação de seu corpo. Entretanto, o sentido pode ser enganado caso exista alguma causa estimuladora não em seus membros, mas em seus nervos.

Descartes conclui que essas reflexões não são úteis apenas para que reconheça os erros aos quais a sua natureza está sujeita, mas também para que esteja ciente de que os seus sentidos lhe indicam mais ordinariamente o verdadeiro do que o falso. Ainda que possa se servir de mais de um sentido, em conjunto com a memória, unindo assim o conhecimento, não deve mais temer se deparar com falsidade nas coisas que lhe tenham sido representadas por seus sentidos.

Deve rejeitar todas as dúvidas dos últimos dias como hiperbólicas e ridículas, principalmente com relação à distinção do sono da vigília, que agora concebe encontrar diferenças notáveis entre eles. Entretanto, como nem sempre as ocupações nos permitem o exame devido, é preciso reconhecer a imperfeição e fraqueza da nossa natureza.

Extra — Porque Descartes não se propõe a falar da mortalidade da alma na segunda meditação

De acordo com Descartes, não foi possível concretizar a tarefa de provar a imortalidade da alma na segunda meditação, pois tal prova dependia de concepções mais profundas, que foram estabelecidas em outras meditações. Entretanto, Descartes afirma que através das provas extraídas de suas meditações:

“a morte da alma não se segue a corrupção do corpo” (P25)

Portanto, Descartes busca proporcionar para os seres humanos a tranquilidade de uma segunda vida após a morte.