Texto em HUI Yuk. Tecnodiversidade (2020)
Primeira Parte: O autor problematiza o dualismo da crítica presente no raciocínio que opõe máquina e ecologia (§1-3)
O autor propõe uma nova “ecologia política” centrada em seu conceito de tecnodiversidade, apresentando brevemente a teoria da cosmotécnica presente em The Question Concerning Technology in China, onde defende uma postura contrária a forma como certas tradições filosóficas lidam com a tecnologia, apresentando as limitações presentes nesse raciocínio que fixa máquina e ecologia como binários insuperáveis.
Segunda Parte: O autor apresenta a redefinição de máquina pela cibernética (§3-5)
O autor explora os efeitos do surgimento da cibernética em meados do século XX, que tornou as concepções mecanicistas (causalidade linear) obsoletas frente ao mecano-organicismo (causalidade circular). Dialoga com Simondon e Hans Jonas sobre a superação do dualismo presente no pensamento reflexivo da cibernética (caracterizado por feedback e informação) e justifica a utilidade de uma reconceitualização a partir da cibernética na relação entre “máquina e organismo, humano e ambiente, tecnologia e natureza”, uma vez que todas as máquinas modernas são máquinas cibernéticas.
Terceira Parte: O autor apresenta a redefinição da ecologia como um sistema cibernético (§6-8)
O autor apresenta os conceitos de ecologia de Ernst Haeckel, onde ecologia é “a totalidade de relações entre um ser vivo e o ambiente em que ele está inserido” e de Jacob Von Uexküll onde a ecologia aparece como um “processo de seleção do Umgebung (o ambiente físico) para o Umwelt (a ‘interpretação’ do mundo pelo ser vivo)“. Utiliza-se do veredito de Marshall McLuhan sobre a “perda do caráter biológico da ecologia” para apresentar a Terra como um “sistema cibernético”. Para Hui, “as máquinas modernas e a ecologia são dois discursos que aderem ao mesmo princípio, o da cibernética”.
Quarta Parte: O autor critica a cibernética enquanto pensamento reflexivo universal (§9-11)
Hui afirma que a cibernética substitui a filosofia como pensamento reflexivo universal, trazendo a noção de Heidegger sobre “fim ou o acabamento da filosofia”. A partir disso, expõe um princípio fundamental sobre a possibilidade do “poder totalizante não dualista” da cibernética como origem do perigo de nossa época, questionando a capacidade da mesma de oferecer soluções para os problemas ecológicos do nosso tempo e de por fim à modernidade. Apresenta o pensamento de Augustin Berque que busca se opor ao dualismo cartesiano através de um pensamento não binário (semelhante ao oriental), mas se opondo a adoção desse como solução, resgatando a crítica de Heidegger sobre a cibernética para propor então um novo programa para mesologia frente a ascensão da cibernética e seu modelo organicista.
Quinta Parte: O autor explora dois sentidos do complexo tecnológico-ambiental para repensar a relação entre tecnologia e ambiente (§11-15)
Hui explica o sentido de “ambiente técnico” do paleoantropólogo André Leroi-Gourhan, onde “o ambiente interno e o ambiente externo formam uma relação recíproca sob a mediação do ambiente técnico”, e também o termo “ambiente tecnogeográfico”, cunhado por Gilbert Simondon, onde “o ambiente geográfico, o que inclui os recursos naturais, não é mais apenas um objeto de exploração, mas está integrado ao funcionamento do objeto técnico”. Hui demonstra como ambos os pensamentos foram influenciados pelo organicismo e pela cibernética, e a partir desse ponto, reflete sobre a afirmação de Heidegger da cibernética como fim da filosofia, concluindo que o meio ambiente não é apenas modificado pela tecnologia, mas também constituído por ela, o que aponta para a necessidade do desenvolvimento de uma “geofilosofia”.
Sexta Parte: O autor remete a trajetória tecnológica que redefine humano e natureza a um processo de “domesticação” (§16-20)
Partindo do conceito de Peter Sloterdijk da “domesticação dos seres humanos”, o autor busca analisar essa tecnologia de domesticação de rebanho, relacionando a mesma com o conceito de “governamentalidade” / “ambientalidade” de Foucault. Aponta como as tecnologias que surgem desde o século XX superam o modo molar de controle que trata “cada sujeito como ser igual, mas específico” através de um modo molecular que trata cada ser humano “como um indivíduo que se diferencia de outros indivíduos”, onde essa relação entre o individual e o seu ambiente é captado na forma de dados, que transforma o capital de um modelo mecanicista para um modelo organicista permeado por máquinas informacionais, resultando em uma sociedade não de vigilância, mas pelo contrário, uma “sociedade do controle” como descrita por Gilles Deleuze.
Sétima Parte: O autor avalia a possibilidade da cibernética enquanto superação do pensamento dualista moderno (§21-22)
Hui questiona a capacidade da cibernética enquanto uma superação do paradigma da modernidade. Explora a localidade no pensamento de Heidegger que acredita que a cibernética é parte desse paradigma moderno e afirma que tanto as políticas reacionárias do século XX, quanto as políticas aceleracionistas são frutos de uma incapacidade de articulação da relação entre tecnologia e localidade, sendo que ambas resultam em uma ignorância do meio que também é uma ignorância da localidade, uma falha em estabelecer uma relação íntima com a Terra devido a uma “perspectiva de tecnologia globalizante”.
Oitava Parte: O autor explora a noção de tecnicidade presente em Simondon para justificar a insuficiência da cibernética como uma solução não dualista (§23-24)
Hui argumenta sobre as limitações impostas pela lógica formal cibernética, resgatando o pensamento de Simondon, que propõe “relacionar o pensamento tecnológico a outros pensamentos”, apresentando seu conceito de tecnicidade e a necessidade de se levar o seu projeto adiante com base na “investigação das especificidades cosmológicas das culturas”. Apresenta o pensamento de Tetsurō Watsuji sobre o fûdo como um exemplo de como a “cosmogeograficalidade constitui uma dimensão importante da localidade”. Argumenta que o pensamento cibernético ainda é um pensamento totalizante, relacionando o mesmo com a lógica hegeliana e extraindo as consequências disso, propondo que “pensar para além da cibernética é pensar para além do efeito totalizante de um pensamento não dualista”.
Nona Parte: O autor propõe a noção de tecnodiversidade como retorno a localidade para uma rearticulação das tecnologias modernas (§24-27)
Hui propõe a reintrodução da localidade no discurso sobre as máquinas, e retornando ao conceito de ecologia e de biodiversidade, propõe a sua noção de tecnodiversidade para um reposicionamento das tecnologias modernas, para repensar o processo de modernização e de globalização a partir da localidade, mas afastando-se de posições etnocêntricas, nacionalistas ou fascistas. Apresenta a sua noção de cosmotécnica como “unificação da moral e do cósmico por meio de atividades técnicas”, inclusive justificando a sua reinterpretação de Leroi-Gourhan. Hui conclui defendendo que é necessário não competir para ver quem é mais avançado, mas sim, “explorar os diferentes sistemas de pensamento tecnológico”, uma diversidade que busque “rearticular o conceito de técnica por meio de seu reposicionamento nos limites do ambiente, da cultura e do pensamento geográfico”.