Intro

Primeira Parte: O autor propõe o fim da globalização e a chegada do Antropoceno como sentidos de cosmopolítica (§1)

Segunda Parte: O autor argumenta sobre as causas do fim de uma globalização unilateral (§2-3)

Para Hui, a globalização universaliza epistemologias particulares e através de meios tecnoeconômicos “eleva uma visão de mundo regional ao status de metafísica supostamente global”. Relaciona os eventos do 11 de setembro a noção hegeliana de consciência infeliz e defende a necessidade de uma “nova linguagem cosmopolítica” que possibilite a formulação de uma nova ordem mundial que vá além de uma única hegemonia, criticando o “futurismo transumanista baseado na aceleração tecnológica de todas as escalas cósmicas”.

Terceira Parte: O autor argumenta sobre as causas da “crise do Antropoceno” (§4)

Para Hui, a modernidade proporcionou uma ruptura epistemológica e metodológica (“A Terra e o cosmos foram transformados em um imenso sistema tecnológico”), aproximando-se da noção heideggeriana de fim da metafísica de fim do cosmos na Europa dos séculos XVII e XVIII de Rémi Brague e Alexandre Koyré, defendendo o desenvolvimento de uma cosmopolítica “não apenas no sentido de um cosmopolitismo, mas também no de uma política do cosmos” (Cosmopolítica de Isabelle Stengers).

Quarta Parte: O autor propõe uma elucidação do conceito de cosmotécnica para tornar possível o desenvolvimento de uma cosmopolítica (§4-6)

Com o seu conceito de cosmotécnica, Hui torna explicito o objetivo de “reapresentar a questão da tecnologia desfazendo certas traduções que foram motivadas pela busca de equivalências ao longo da modernização”. Apresenta essa problematização nos termos de uma antinomia kantiana que possui tanto uma tese e uma antítese sobre a universalidade antropológica da tecnologia

Propõe uma divisão dos capítulos em três partes para explorar 3 aspectos:

  1. relação entre os conceitos kantianos de cosmopolítica e natureza
  2. comparação do multinaturalismo da “virada ontológica” com a busca kantiana pelo universal
  3. defesa da adoção da cosmologia em direção à cosmoética como política por vir

1. Cosmopolitismo: Entre a Natureza e a Tecnologia

Primeira Parte: O autor apresenta a cosmopolítica como teleologia da natureza de Kant (§1-5)

Através de um trecho de “Ideia de uma história universal de um ponto de vista cosmopolita” de Kant, explora a noção de progresso como “realização de um plano oculto da natureza”, como uma relação necessária entre natureza e cosmopolítica. Argumenta que o desenvolvimento do conceito de auto-organização (comunidade, reciprocidade de ação) é causa da existência de uma afirmação ainda mais consistente da cosmopolítica como teleologia do futuro em Kant (1789), apresentando justaposições como de Hanna Arendt sobre os conceitos de paz perpétua.

a natureza só pode ser compreendida como um todo complexo, e a espécie humana, parte desse todo, acabará por progredir rumo à história universal que coincide com a teleologia da natureza (§4, P29)

Segunda Parte: O autor argumenta que as ideias kantianas foram produzidas em um momento de encantamento e desencantamento da natureza causado pelas ciências naturais que levaram a uma secularização do cosmos (§5-6)

Hui mostra que embora Kant reconhecesse o orgânico e uma conexão do cosmos com a moral, a afirmação da “história” universal e os avanços da ciência e da tecnologia no século XVIII levaram ao que Brague considera uma “morte no cosmos” (ou até mesmo uma perda de caráter antropomórfico da Natureza de acordo com Diane Morgan).

Apresenta o papel decisivo da tecnologia na filosofia política Kantiana juntamente com as interpretações de Hanna Arendt sobre o papel do senso comum (comunidade, consenso) em Kant. Propõe uma problematização em qualquer discurso ingênuo que enxergue o comum como algo dado ou precedente a técnica. Para Hui, a era do Iluminismo enquanto “uso público da razão” só é possível mediante a tecnologia (por exemplo, de impressão).

2. “Virada Ontológica” como cosmopolítica

Primeira Parte: O autor justifica a reiteração ao cosmopolitismo kantiano para uma reconsideração do cosmopolitismo examinando suas relações com a natureza e a tecnologia (§1)

Demonstra o papel da natureza na filosofia política kantiana que impele a racionalidade a uma universalidade teleológica organicista e afirma que os empreendimentos da modernidade européia e a sua globalização produziram uma “morte do cosmos” (encantamento e desencantamento da natureza).

Segunda Parte: O autor apresenta o movimento da “virada ontológica” e o pluralismo ontológico de Descola (§2,3)

Apresenta a virada ontológica juntamente com alguns de seus autores, aprofundando o pluralismo ontológico de Descola que defende uma superação da oposição entre natureza e cultura (que se expressa no naturalismo moderno).

Terceira Parte: O autor aponta os limites da virada ontológica e levanta uma hipótese sobre a dominação do naturalismo no pensamento em resposta a Descola (§3)

Para Hui, um dos problemas latentes da virada ontológica é o foco dos antropólogos na questão da natureza e na política do não humano, que levou a um tratamento insuficiente da questão da técnica, justificando que se houve um analogismo em oposição a um naturalismo no modernismo europeu, a epistemologia e a ontologia da modernidade que se produziram são bem diferentes, afirmando que então uma imaginação cosmológica do gênero foi compatível com esse desenvolvimento tecnológico (a natureza só é dominada porque pode efetivamente ser dominada).

a natureza é considerada a fonte de contingências devido à sua “fragilidade conceitual” e, por isso, precisa ser subjugada pela lógica (§3, P35)

Quarta Parte: O autor se afasta da crítica pós colonial (racionalista ou de esquerda) propondo uma releitura do cosmopolitismo kantiano que considere tanto a modernização quanto as questões de tecnologia e da natureza (§4,5)

Hui se afasta tanto de uma preservação monoteísta racionalista quanto de uma exaltação da ontologia ou da biologia nativa como uma saída para a modernidade, propondo uma superação da crítica pós-colonialista através de um retorno a Kant que considere o processo de modernização e as questões da natureza e da tecnologia. Retoma os conceitos antropológicos de natureza como “ecologias de relações” e conclui que as multiontologias se expressa, como multinaturezas, ou seja, em Descola, suas quatro ontologias correspondem a diferentes visões cosmológicas.

3. Cosmotécnica como cosmopolítica

Primeira Parte: O autor defende uma rearticulação da questão da tecnologia sobre a perspectiva das cosmotécnicas para superação da crise (§1)

Hui apresenta uma definição preliminar de cosmotécnica e defende que a crise expressa nas mais diversas noções (“Antropoceno”, “Intrusão de Gaia” de Latour e Stiegler, juntamente com seu “Entropoceno”) deve ser confrontada através de uma bifurcação de futuros tecnológicos sob a concepção de cosmotécnicas diferentes.

Segunda Parte: O autor apresenta o conceito moderno de técnica presente em Heidegger, suas limitações, propondo a sua superação para uma superação da modernidade (§2-4)

Hui afirma que seu livro The Question Concerning Technology in China é uma tentativa de responder a HEIDEGGER Martin. A Questão da Técnica (1954) para uma superação da modernidade. Heidegger trata a tecnologia como internacional (e não universal), como se só existisse essa tecnologia moderna descrita por ele, por isso Hui acredita que o seu discurso, amplamente usado como base , é muito estrito e antecipa uma “globalização tecnológica como uma forma de neocolonização que impõe sua racionalidade via instrumentalidade” (ex: “nas políticas transhumanistas e neorreacionárias”) e propondo uma recolocação da questão da técnica como uma variedade de cosmotécnica, e não como technē ou tecnologia moderna.

Terceira Parte: O autor descreve o pensamento cosmotécnico chinês através da unidade do “chi” e “tao” (§4-9)

Hui afirma que em seu livro The Question Concerning Technology in China tentou reconstruir a genealogia do pensamento tecnológico chinês. Mostra como o pensamento cosmotécnico chinês consiste em uma longa história de pensamentos sobre a unidade do “chi” e do “tao”, sendo que essa união também é uma união da moral e do cosmos, defendendo que a metafísica chinesa é, em essência uma “cosmologia moral” ou uma “metafísica moral”, concordando com o novo confucionismo de Mou Tsung-San e explicando a base de sua moral com relação ao pensamento kantiano.

Aprofunda os conceitos de Chi e Tao, inclusive relacionando com os númenos e os fenômenos de Kant, fornecendo o exemplo da história do açougueiro Pao Ding para ilustrar esses conceitos, mostrando a prevalência da questão do “viver” mais do que a questão da técnica na narrativa.

O autor reforça a necessidade de uma atenção ao desenvolvimento histórico do chi e do tao (também presente em The Question Concerning Technology in China) visando reconstruir uma tradição de pensamento tecnológico na China através das lentes da episteme chi-tao.

Quarta Parte: O autor defende que todas as culturas devem refletir sobre a questão da cosmotécnica para que uma nova cosmopolítica se concretize (§9)

Para Hui, “todas as culturas não europeias deveriam sistematizar suas próprias cosmotécnicas e as histórias dessas cosmotécnicas” para o surgimento de uma nova cosmopolítica, para Hui:

… para superarmos a modernidade sem recair em guerras e no fascismo, parece-me necessário nos reapropriar da tecnologia moderna através da estrutura renovada de uma cosmotécnica que consista em diferentes epistemologias e epistemes

Se afasta dos tradicionalistas, que para Hui possuem um projeto de substancialização da tradição (ex: Dugin e Guénon), para Hui, “o objetivo não é recusar a tecnologia moderna”, mas analisar a possibilidade de futuros tecnológicos diferentes defendendo uma recusa a um futuro tecnológico homogêneo como que é única opção.


(EES) (2017) HUI. Cosmotécnica como cosmopolítica